Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 2 [Vampiro a máscara 5ª edição]
(12/02/2023 domingo)
As noites após o encontro com Mazira foram de relativa calma e mesmo assim com as doses estranhas que a não-vida permite aos vampiros.
Aquela era uma época do ano com muitos símbolos e significantes. Era um período em que os clãs buscavam uma certa unidade, numa tentativa de manterem-se fiéis uns aos outros e não apenas às promessas da Camarilla.
Torrado Martins andava sob as ruas tumultuadas do Cruzeiro. O papel que havia lido poucas horas antes determinava sua presença naquele ambiente subterrâneo e até certo ponto conhecido. Ao longe o vulto esguio e estranho de Perseu era exposto para que Martins o visse sem alarde. Perseu havia buscado segurança nos domínios de Brasília na mesma época que Vinícius Torrado Martins. Não que ambos fossem amigos, mas havia um respeito e até uma simpatia entre os dois. Para os monstros, às vezes dividir a dor, mesmo que silenciosamente, era uma forma de mostrar laços. O papel que Perseu representava naquele lugar era de recepcionista. Alegrou-se ao ver Torrado, estendeu-lhe a mão, cumprimentaram-se. Andaram pela quase escuridão daquele corredor. Atravessando as paredes, num batuque distante, ouviam os ensaios da escola de samba que estava acima. Seguiram em direção à sala principal. O pórtico era guardado por dois imensos jacarés, escravos de sangue de Lodo. Eram Ed e Ted. Tanto Torrado quanto Perseu sabiam que era de bom tom evitá-los.
Quando entrou no salão, Torrado viu Lodo, o de vários títulos, sentado e com seu macabro sorriso no rosto. Lodo, o primogênito nosferatu, o xerife, o filho da sujeita, o irmão da podridão, o pai da conspurcação. Soturna atrás da cadeira de Lodo estava mais uma nosferatu, Alice Pink, o braço direito do xerife. Alice tinha a estranha característica de ser extremamente solícita e amistosa, algo que entrava em conflito com sua horrenda fisionomia, a natureza monstruosa dos senhores subterrâneos e a próxima alegoria vampírica. Ela acenou timidamente para Martins.
Lodo saudou Torrado e questionou-o sobre a tarefa executada por sua coterie, se as palavras que a noite havia levado até ele eram verdades, queria saber mais sobre Mazira e quem era o mandante daquela armadilha ao ravnos. Vinícius contou os fatos como aconteceram. Procurou não deixar nada de fora da narração, tanto que possuía uma forma de entrar em contato com Mazira quanto o fato de não saber quem havia armado para o larápio. Lodo ouviu, não ficou satisfeito com a falta de informação, entretanto todo resto lhe agradava. Alice Pink trouxe um pobre mortal amarrado, com olhos esbugalhados de medo e o deixou à frente de Martins. Lodo sorriu mais uma vez fez um gesto de consentimento para Torrado. Aquilo era uma pequena recompensa pelo serviço prestado. Torrado alimentou-se. Em seguida todos os outros se alimentaram, contudo o infeliz não foi executado, a última e fatal mordida ficaria a cargo de um visitante, Cipriano, um nosferatu anarquista que havia pedido um tempo de segurança aos nosferatu de Brasília. E assim a vítima chegou ao seu fim, com os monstros satisfeitos com sua refeição macabra.
O senador retirou o terno, abriu o botão do punho da camisa, levantou a manga e ofertou o braço enrugado, de veias proeminentes, ao ventrue. O vampiro de ar nobre mordeu com raiva e sugou daquele corpo velho mais sangue do que necessitava naquela noite. Pedro Mendonça desmaiou.
Teixeira eliminou as marcas de sua alimentação, limpou a boca com um lenço e falou tanto com Osório, o motorista de confiança, quanto a assessora e fiel ouvinte Valéria. Informou-os que o senador tiraria férias, estava doente, precisava descansar e passar tempo com a família, esposa, alguns netos. Nem Osório nem Valéria sabiam da natureza sobrenatural de José Teixeira Cavalcante, mas entendiam bem os meandros da política e que suas ações e silêncio sempre rendiam bons lucros. Como bons lacaios executariam as ordens recebidas.
Em outra noite, em outro lugar, Pastor Israel ouvia com paixão incontida as palavras ditas por Paulo “o Pastor” Cravos. A congregação estava cheia de fiéis. As orações e a fé naquelas pessoas transcendiam as paredes da igreja. Ali havia todo tipo de pessoa, porém uma coisa ligava todos ao fanatismo religioso que demonstravam, o medo. O medo do escuro, o medo da noite, o medo de morrerem sozinhos e serem alimento para algum demônio sombrio, o medo mais primal, que vinha desde quando Deus expulsou o homem do paraíso. Mal sabiam os mortais que dedicavam sua fé e a externavam no templo regido pela própria fonte do medo que buscavam afugentar. O culto terminou e os pastores começaram a conversar após o último irmão ter partido. Ambos eram vampiro. Ambos cometeram pecados abomináveis aos olhos do criador, aos olhos dos seus antigos afiliados, só que de uma maneira macabra há uma fé e devoção nesses homens. Cravos pede ajuda a Israel, uma coisa que em anos anteriores seria impensável. Segundo Pastor Cravos havia uma criança, filha de uma das irmãs da congregação, que estava possuída pelo demônio. Não era uma farsa que tantas vezes exorcizaram, às quartas feiras, no alto do altar. Era algo realmente inexplicável e que deveria ser visto de perto. “Ajudar” à irmã Cleide serviria tanto para eles entenderem como era experimentar a humanidade, para estudarem seu novo modo de vida e também para se aproximarem de algumas filosofias da Camarilla. Provavelmente estariam equivocados, entretanto era o que acreditavam ser o certo a fazer.
Os dois lasombra chegaram à casa da irmã Cleide. Por forças além da compreensão o Pastor Cravos não conseguiu entrar porta adentro, mas o Pastor Israel foi capaz. Ao chegar no quarto da menina ela estava dormindo. Israel olhou para a mãe e pediu para ela esperar do lado de fora, orar a Deus e deixar que as forças divinas façam o serviço. A mãe se ajoelhou. O pastor fechou a porta e quando se virou para iniciar os procedimentos a menina o encarava a não mais de 10 centímetros de distância, pendurada no teto, de ponta cabeça e proferindo palavras impossíveis de serem entendidas pelos seres humanos. Israel não era humano. Ele deu um passo atrás e logo se recobrou do susto. Empurrou a criança em direção da cama e utilizou a bíblia em sua mão. Espancava a criança com o livro sagrado e recitava as palavras de fé, para que o espírito sombrio saísse do corpo daquela pessoa. Havia a dicotomia da escuridão e da fé no coração do lasombra, e certamente havia a fera que assombrava eternamente todos os desmortos. A criança tentou arrancar os olhos de Israel, que quebrou os braços da menina e continuou seu ritual. Após horas de extenuante exercício de religiosidade, conseguiu remover o que quer que estivesse no corpo da menina. A fera desejava saciar sua fome, mas Pastor Israel se controlou. Não beberia do sangue de uma recém possuída. Pelos sinais observados e pelas palavras ditas pela coisa, tudo era obra da mãe, que era abusiva e colocava sobre a filha o peso da idade, o abandono do marido, a pobreza e a jovialidade da garota que chamava a atenção dos rapazes. A inveja, raiva e instinto protetivo abriram as portas da criança para aquela criatura. Pastor Cravos conseguiu finalmente entrar na casa. Irmã Cleide queria agradecer aos pastores pelas graças adquiridas. Ambos os lasombra a fizeram se ajoelhar, fechar os olhos e beberam seu sangue em oração. Aquele ritual e suas consequências não seriam ditas a Santa Tereza do Sangue.
Os rituais tremere daquela época do ano eram levados com seriedade e atenção além do comum. Poucos eram os momentos que tantos os membros da casa Tremere quando da casa Carna executavam ritos juntos, mas aquela era a noite da queda de Beliza Gregory e ela seria lembrada eternamente por seus fiéis seguidores, como o ícone, a expectativa e a força que os tornaram tremere. Beliza havia sido a Príncipe de Brasília por vários anos e era venerada acima mesmo do nome de Henrique Médici. Relembrar a venerada e fortalecer os laços do clã eram importantes. Eli Urt conversava com o primogênito e líder da casa Tremere, Jason Wild. Wild mostrava o descontentamento que morava em seu coração com a decadência que os assolava, a falta que sentia da venerada, a força que possuíram e da ascensão da casa Carna nos meandros do clã. Falava também da necessidade deles e como acabaram reféns de suas forças. Então o sangue de Margot, a favorita, foi sentido quando ela atravessou os umbrais do lugar. Urt e Wild aguardaram que ela se aproximasse com seu secto e todos se posicionaram para os rituais.
Os acólitos limparam o lugar, prepararam as velas, as ceras, os adereços, roupas, limparam os vampiros e passaram os óleos e o sangue preparado para o momento. O ritual teve início. Aos seus olhos a lua tomou tons avermelhados, a chuva caiu, o vento açoitou e as palavras ditas tornaram-se poder. O sacrifício foi executado e Eli Urt consagrou tudo a Beliza Gregory, a pedido de Jason Wild. Margot, Alves e os demais Carna entregaram-se por completo ao ritual, afinal, eles eram tremere e já sentiram o sangue um do outro em seus corpos.
O dia se aproximava e todos se dispersaram, não sem antes a favorita se aproximar de Urt e parabenizá-lo pela perfeição com que regeu a liturgia e pediu para que levasse suas palavras de satisfação aos ouvidos de Jason Wild, por ser tão exímio tutor. Eli Urt ficou inquieto com aquelas palavras.
Catarina entrou na suntuosa e elegante mansão de Iran Borba, a harpia. Se há algo que é padrão nos toreadores, ainda mais os que galgam postos na hierarquia cainita, é sua capacidade de demonstrarem o quanto são maravilhosos e belos em tudo que tocam e fazem querer. Elisabeth, a linda e dependente carniçal de Iran guiou a majestosa Catarina Oliveira pelos corredores e salas, onde homens e mulheres discutiam cinema, música, as particularidades do corpo, o esplendor da vida e a beleza dos atletas. Ao chegarem no ateliê, um formoso rapaz estava sentado em uma pose digna. Seus músculos esculpidos em academias e seu penteado retirado das melhores revistas de atualidades faziam-no um excelente modelo para o quadro que era pintado por Iran Borba. Ao perceber que sua pupila Catarina havia entrado no lugar, Iran ordenou que o jovem se vestisse e saísse da sala e que retornasse na noite posterior para terminarem a pintura. Catarina sorriu ao ver o rapaz, mas também sorriu quando recebeu frio abraço acalentador de Iran, gelado de uma forma que apenas um icebergue poderia concorrer, mas quente em suas intenções. Iran não regulou elogios à vampira, não diminuiu as qualidades da jovem toreador, e ressaltou com todas as alegorias possíveis as benesses que ocorreram das ações que ela e sua coterie fizeram. Iran enojava-se com a descrição vívida demais que Catarina deu dos calabouços de onde retiraram o ravnos, dos cheiros e jeitos e da pobreza e do olhar dos criminosos, mas mesmo essa ojeriza era encantadora e o jeito que conversavam simulava a naturalidade dos que se sentem superiores a todos. Por final Iran informou a Catarina que em duas semanas haverá um baile de máscaras em homenagem aos seus feitos e que todos de sua coterie deveriam ser convidados, mesmo o nosferatu. E Pastor Israel deveria ser especialmente bem vindo, para que os lasombra se sentissem parte da grande e maravilhosa família que era a Camarilla.
Algumas noites depois os cinco estavam na sala de reuniões abaixo da casa noturna que dividiam e usavam tanto como refúgio como disfarce para suas atividades. Conversaram amenidades e palavras soltas sobre a própria sociedade em que viviam. Foram todos convidados por Catarina para o baile de máscaras organizado por Iran Borba, disse que no baile provavelmente estariam vários outros membros, talvez até Maximiliano Jean Carlo, o Príncipe de Brasília e seu senescal Reinhardt Birkheuer von der Näcktschwert. Aceitaram o convite, até mesmo Pastor Israel, que achava um baile de máscaras algo extremamente cliché e característico da Camarilla. Durante a conversa viram um copo se espatifar no chão, sem que ninguém o tocasse. Ficaram apreensivos. Catarina tentou ver além do invisível e de seus olhos jorravam lágrimas de sangue, que queimavam sua pele. O sangue formou o desenho de um pentagrama vivo no chão, que logo apodreceu e escureceu. Eli Urt tratou de pegar as lágrimas de Catarina para estudo posterior, enquanto Pastor Israel buscava entender o pentagrama e o ocorrido. As indicações levavam a uma ligação estranha com Vinícius Torrado Martins.
Questionado sobre o ocorrido, Torrado Martins era categórico em dizer que não sabia de nada. Por horas e horas discutiram, brigaram e trocaram palavras. Ao fim, quase antes do sol nascer, o Pastor Israel foi convencido que qual fosse a ligação, não era intencional, provavelmente era semelhante à da irmã Cleide com sua filha, onde ações paralelas geravam situações improváveis.
Ao chegar ao seu esconderijo, Torrado deitou-se para dormir e evitar o dia, e instantes antes do sono semelhante à morte o acometesse, ouviu o sussurro em seu ouvido, com uma voz etérea e repleta de ódio – “será assim sempre, senão pior” – o sol rompeu no céu e o sono perturbado tomou Martins.
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Personagens
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra]
NPCs:
Lodo – Nosferatu, Xerife e Primogênito
Perseu - Nosferatu
Alice Pink - Nosferatu
Cipriano - Nosferatu, Anarquista
Mazira – Ravnos, motoboy da madruga
Pedro Mendonça - senador da república
Valéria - assessora parlamentar
Osório - motorista
Pedro "o Pastor" Cravos - Lasombra
Irmã Cleide - membro da congregação do Pastor Cravos
Meire - filha de irmã Cleide
Santa Tereza do Sangue - Lasombra
Jason Wild - Tremere, Primogênito
Margot - Tremere, casa Carna
Beliza Gregory - Tremere, antiga Príncipe de Brasília
Willian Alves - Tremere
Iran Borba - Toreador, Harpia
Elisabeth Viana - carniçal de Iran
Manu Santos - jovem atlético
Maximiliano Jean Carlos - Ventrue, o Príncipe de Brasília
Reinhardt Birkheuer von der Näcktschwert - Malkaviano, o Senescal de Brasília e Primogênito do clã.
Sistema:
Vampiro: a máscara 5ª edição

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