Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 7 [Vampiro a máscara 5ª edição]

  


Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 7

(02/04/2023 domingo) 

Torrado estava embaixo da mesa, trêmulo e em um acuamento autoimposto. Por dias não se alimentou e sequer conseguiu sair de seu esconderijo. Em um ato de esforço mental sobre-humano, havia finalmente chegado ao refúgio coletivo. Lá ele guardara os últimos sacos de sangue que havia roubado do intermediário em noites passadas. Sussurrava, quase sem palavras, para si mesmo, um pequeno mantra que havia aprendido pouco após seu abraço, quando sequer havia sido apresentado como membro à Camarilla. Aquilo o ajudava a se concentrar.

Eli Urt e Catarina Oliveira foram os que o encontraram. Eles sabiam o que aquilo significava: a besta estava faminta. Precisavam agir rapidamente, mas sem mostrar afobação. Fariam de tudo para evitar que o monstro interno aflorasse e a pior das facetas da maldição vampírica se impusesse. Não bastasse estarem eternamente distantes do calor do Sol e das relações reais entre as pessoas, eles sabiam que precisariam da vitae para sobreviver às incontáveis noites e que não saciar a Fome perene era também não alimentar o monstro interior, que aguardava qualquer deslize, da mente, da alma do corpo ou do caráter, para poder tomar o controle e matar. Era estranho pensar sobre isso. Eles viviam esses sentimentos e conflitos o tempo todo, mas usavam suas obrigações, compulsões, fetiches e unidades sociais para fingir que eram muito maiores do que simples animais irracionais e famintos.

Eli foi até a geladeira onde sabia estarem as bolsas de sangue. Catarina observava Martins com muita atenção, pronta para qualquer movimento. Urt arremessou o pouco estoque de vitae que havia, em direção a Torrado, que bebeu com aflição cada gota do viscoso líquido ferroso.

Cavalcante  ouviu a confusão e foi avaliar o caso. Questionava-se como vampiros mais velhos ainda agiam como "animais", se isso era algo apenas referente aos Nosferatu, ou talvez de todos os clãs menores. Não externou seus pensamentos. Seria magnânimo e ajudaria o membro de sua Coterie, pois, se ele não fizesse, quem mais poderia resolver aquela situação?

Dispôs-se a olhar Torrado junto com Eli enquanto Catarina buscava uma vítima na Bloodlust.

A Toreador foi eficiente, como sempre. Como não estava caçando para si mesma e sim para o problemático Nosferatu, ela não teve os mesmos parâmetros de exigência de uma noite corriqueira. A vítima foi o primeiro homem de meia idade, classe média, acima do peso, mas que fazia alguns exercícios para compor uma autoimagem, que viu. Ele certamente passando por uma potencial crise existencial, daquele período do início da decrepitude da vida, onde o medo da morte começa a rondar, que ela, a perfeita vampira, jamais passaria.

Ela olhava para o homem com um misto de raiva e piedade, se isso era possível. Ele exibia os objetos que acreditava darem poder para si, como as chaves do carro caro, porém usado, a carteira de couro importada, o cartão quase exclusivo de um banco quase importante. O jeito com que ela permitia que ele acreditasse que ela seria um troféu, beirava o patético, mas sempre funcionava. Flertaram, ele a seguiu, e então seu mundo se nublou.

Quando o homem deu por si, se debateu em desespero ante os dentes afiados do monstro grotesco que sugava seu sangue, tornava-o fraco, e o fazia atingir um orgasmo envergonhado e extasiante. O Nosferatu se alimentou. Torrado Martins sabia da dívida que tinha com seus pares e não macularia o santuário de seu refúgio. Entregou a vítima a Eli e agradeceu a todos, principalmente a bela e perigosa Toreador.

Eli aproveitou e saciou um pouco sua própria fome. Cavalcante mandou Pareto, o obediente "faz tudo" da Sentinela Escarlate, levar aquele corpo quase sem vida para um lugar onde ele, ou morresse por conta própria, ou sobrevivesse para um resto de vida em vergonha.

Pastor Israel entrou no refúgio a tempo apenas de lançar um olhar sobre Pareto, que carregava o corpo pra um lugar de esquecimento. Israel evitou questionamentos, mas pelo circo armado, tinha certeza de que era coisa de Torrado Martins.

 

Com a fome saciada era hora da Sentinela Escarlate cumprir com suas obrigações junto à Camarilla, pois a Máscara precisava ser mantida. 

Pastor Israel levou a informação de que a coisa que deveriam "resolver" era cria de um vampiro do clã demoníaco, Tzimisce, chamado de Niko Petrakis. Cavalcante havia entrado em contato com Mazira, o Ravnos resgatado da 4ª DP e com ele conseguiu dois novos elementos para a execução de sua missão. O primeiro é que os Ravnos chamavam de amaldiçoado, o local informado por Edmar, o homem que tirou a fotografia da aberração. Nenhum Ravnos chegaria próximo daquele lugar, fosse por ofício ou por fuga da luz do sol. Era melhor ser queimado pelo olho de Hélios do que passar uma noite sequer naquela região. O outro elemento que conseguiu com Mazira foi uma chave, de um lugar seguro para passarem o dia, a não mais de vinte minutos de onde iriam. Como o mesmo disse, não era um lugar confortável, mas seria um lugar útil se o tempo começasse a se esgotar.

E qual não foi a surpresa de todos quando Catarina, assumindo uma faceta hollywoodiana, surgiu como uma diva de filmes de ação, e portando uma enorme espingarda calibre 12, entregou balaclavas a todos. Ficaram um pouco estupefatos, contudo apenas aceitaram o presente. Como discutir com aquela linda e exuberante mulher com uma arma daquela nas mãos?

Chegaram aos limites de onde haviam ido com Edmar a duas noites. A última luz de mercúrio estava a mais de 800 metros atrás deles e não havia mais caminho que o veículo pudesse adentrar. Seguiram a pé, em plena escuridão da mata ciliar, que emprestava um tom assombrado à já apavorante empreitada.

Por uma distância considerável perambularam por uma trilha antiga, tomada por raízes e relva, guiados apenas pelas lanternas e pelo destino dos amaldiçoados, até chegarem a uma nítida marcação estranha em um mourão de cerca. Os olhos de Israel quase saltaram das órbitas e um nó cresceu em sua garganta. Nenhum dos outros presentes conseguiria ler aqueles símbolos. Um velho e decadente círculo de proteção Sabá. Não importando qual fosse o futuro, aquele era o ponto de não retorno. Se entreolharam, mantiveram as precauções e continuaram. A angústia crescia a cada momento no coração atrofiado de Pastor Israel. 

Com seus olhos de escuridão, de súbito viu um vulto, sob as árvores. Jurava ser algo como uma cabeça, invertida, com patas semelhantes às de aranha, saindo das têmporas. Quando levou a lanterna ao local para mostrar a coisa a seus aliados, não mais viu o que quer que fosse. Duas, três, quatro vezes sabia que havia notado aquilo, ou outros daquilo, mesmo que de relance.

Chegaram ao final da mata e vislumbraram a grande casa construída ainda antes da demarcação da capital. Entre o limite da última árvore e a casa havia aproximadamente 100 metros de terreno estéril, sem sequer uma única erva daninha ou planta nativa. 

Atravessaram aquele inóspito e limitado deserto até a porta da velha casa, onde duas rosas, da cor do mais vivo sangue, nascidas de um único caule a direita e outro a esquerda do portal de entrada, enfeitavam morbidamente aquele campo infértil. A beleza das rosas era tão grande que por um bom momento Catarina se perdeu em devaneio.

Bateram à porta, que apenas ecoou no vazio.

Viram que a fechadura já não estava intacta, que havia sido forçada em algum momento do passado e isso fez com que empurrassem levemente a porta que rangeu estridentemente, como se anunciasse aos espíritos do abismo que alguém havia chegado sem ser convidado.

Jogaram as luzes das lanternas sobre o local. Viram folhas trazidas pelo vento e poeira por todo o lugar. Mobilha velha, marcada pelo tempo, as intempéries climáticas trazidas pelas janelas quebradas, por traças e roedores.

Logo no saguão Eli Urt viu os ossos de um braço, arrebentado na metade do úmero, segurando uma folha de papel. Era a página de uma agenda com a data de 2015, com a letra dos que buscaram aprender a escrever muito após a juventude.


"Otávo e Diocleciano to indo embora. o mestre moreu. discupa nao ter coragi de descer e ti falar. Nós não tem mais DEUS. Nos é do diabo. perdao. 

Livia"


Olharam mais dois ou três aposentos e entre outros móveis apodrecidos, viram outras páginas. Elas estavam espaçadas, repletas de fezes de ratos, visivelmente roídas por essas criaturas. A caligrafia era exímia, ao contrário do papel que mal escrito anteriormente. Havia algumas anotações com caneta tinteiro e outras feitas com esferográfica. O cuidado com a escrita era o mesmo com ambos os métodos, apesar de um pouco mais forte com a esferográfica, como se a pessoa precisasse escrever mas não quisesse usar aquela ferramenta indigna.

Torrado Martins pegou os fragmentos e juntou-os da melhor forma possível.

Martins leu.


"Memórias de Otávio e Deocleciano

Senhor Orestes Atanasia Grosu tem mostrado inconstância nos últimos dias, com sua voz reverberando por todo subterrâneo da casa, causando desespero e temor em todos, até mesmo o deformado tem sido acometido pelo medo em virtude dos gritos.

Lívia e Altina me relataram que coisas estranhas têm acontecido acima. Pratos voando, vozes sem corpo, sangue fluindo dos olhos de Neide. O senhor não conteve sua fúria e devorou os olhos da parda. Ela, sem dúvida, mereceu sua punição."


À medida que Martins lia as palavras bem escritas, o desespero crescia em Pastor Israel. Santa Tereza do Sangue havia dito o nome de Niko Petrakis, mas esse nome não significava nada para Israel, entretanto quando o nome de Grosu foi citado, as lendas do demônio do Sabá. 


"Hoje, deparei-me com uma sombra invertida no quarto dos roedores. Ela exibiu um sorriso desdentado e sumiu ao tencionar a pestana. Logo após, o senhor clamou em seu túmulo. Percebi então que o astro-rei ainda brilhava no firmamento e que tal ente o estava afetando.

O senhor não me procurou para questionar, porém caso o tivesse feito, revelaria o que visualizei, ainda que pudesse perder meus olhos ou minhas mãos. Quem sabe, tal situação não seria uma ocasião propícia para obter seu perdão e reaver minha fala? Não obstante, não quero incomodá-lo com minhas questões, posto que é poderoso o bastante para lidar com o que quer que seja.

Há já demasiado tempo que cessaram os brados do senhor. Nem Lívia nem Altina descem mais a este subsolo. Vislumbrei um aleijado estranho hoje, assemelhava-se a alguém que conhecia, mas poderia ser qualquer um dos antigos servos.

...

O deformado anseia por alimentar-se, veio aqui. Naturalmente, não chegou a adentrar a câmara, mas seguiu direto para o quarto dos ratos.

...

Parece que a fome do deformado cresceu em intensidade. O senhor deve tê-lo privado de alimento. É certo que ele cometeu algum delito para sofrer tal castigo. Os sons que emite de padecimento, violência e autofagia são verdadeiramente grotescos.

...

Lívia e Altina não mais estão conosco. Neide também não parece mais estar. O deformado já não grita. Terá encontrado uma saída ou, simplesmente, deixou de existir?

...

Um homem antigo e uma mulher antiga, adentraram o subsolo. Recordo-me de havê-la avistado em outra ocasião. Vieram certamente falar com o senhor Grosu. Como ingressaram na casa? Que serviçal lhes permitiu tal acesso? O senhor não ficará contente. Espero que compreenda que, se restituir minhas pernas, poderei ser mais útil na defesa desta residência. Onde está o deformado para repelir esses invasores?

...

O par antigo retornou novamente. O homem antigo chamou-a de Benedita por três vezes, de Venegas por quatro vezes e de "a sombra" uma vez. Ignoro o nome do homem antigo. Procuram algo de valor. Se pudesse movimentar-me ou falar, convocaria o deformado para expulsar tais pandilheiros, ainda que sendo antigos estejam em território que não lhes pertence."



Se estar na casa de Atanasia Grosu já não era penitência o suficiente, ouvir o nome da mais querida aliada de sua senhora, era como um murro no estômago. O que Benedita Venegas fez aí? O que ela buscou junto com o outro vampiro? Se dependesse apenas de Pastor Israel, aquele lugar seria purificado pelo fogo.

Urt foi para a janela e observou a escuridão externa. Viu um pássaro voar baixo e desaparecer no ar, como se jamais tivesse existido e então, com um leve pigarrear, se deu conta que as marcas de proteção mostradas por Israel não eram para impedir que alguma coisa entrasse na propriedade e sim que algo da propriedade saísse para mundo e agora eles estavam lá dentro, presos com a coisa.




Personagens
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra] 

NPCs:
Mazira - Ravnosa;
Santa Tereza do Sague - Lasombra;
Benedita Venegas - Lasombra;
Niko Petrakis / Orestes Atanasia Grosu - Tzimisce;
Lívia - serviçal;
Otávio e Deocleciano - serviçal;
Luiz Pareto - carniçal;
Edmar - testemunha ocular.

Sistema:
Vampiro: a máscara 5ª edição

Comentários