Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 17 [Vampiro a máscara 5ª edição]
Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 17
(02/07/2023 domingo)
Dois membros da coterie Sentinela Escarlate estavam dentro de um carro, junto com dois mortais que haviam acabado de fechar seu estabelecimento comercial. O homem era Divino Moura e ao seu lado estava Joana, sua esposa. Atrás deles estavam Eli Urt e Torrado Martins, ambos senhores da noite, ambos vampiros. Segundo-os de perto, em outro carro, estavam Pastor Israel e José Teixeira Cavalcante, também membros da Sentinela Escarlate, também vampiros.
Ameaçados pela voz sombria de Eli Urt e pelo horror de Torrado Martins, Divino e a esposa rumaram para um terreno baldio não muito distante, mas que ficaria longe dos olhos de qualquer curioso. Tanto a mulher quanto o homem estavam com medo de morrer.
Ao chegarem do lugar desolado, os vampiros iniciaram um grotesco interrogatório. Queriam saber sobre o paradeiro de um monstro. Desejavam saber como encontrarem Ingrid, a Gangrel, uma criatura que, segundo Bruno Giovanni, era um membro da Camarilla, mesmo com a saída de outros de seu clã, mas que havia perdido o caminho da civilidade e agora era uma ameaça à Máscara.
Divino buscou não falar coerentemente, tentava ser escorregadio nas respostas, enquanto a mulher começou a surtar e gritou para que divino dissesse o que os homens queriam ouvir. Mesmo divino não querendo dizer, ela insistia. As perguntas continuaram a serem feitas, cada vez mais ameaçadoramente e inevitavelmente armas foram apontadas para ambos.
Cavalcante perdeu a calma e, com a disciplina do hipnotismo que alguns vampiros chamavam de Dominação, obrigou-os a dizer a verdade.
Joana Moura, a esposa, enlouqueceu de medo, perdeu a pouca compostura à qual se apegava, sabia que se não falasse, aqueles monstros iriam matá-la, então pegou um lápis que estava no carro e, gritando para que o esposo dissesse algo logo, enfiou o lápis no rosto do marido.
O sangue jorrou da cara de Divino e os vampiros quase se perderam no carmesim viciante. A cena era atordoante, porém efetiva. Divino cantou como um pássaro. Disse como chegarem à localização de Ingrid e lhes passou, a contra gosto e desespero, as chaves das portas, e as informações que eles buscava. Aquilo o devorava por dentro. Era um misto de traição com pavor e consequências inimagináveis. O filho mais novo do casal só estava vivo pelo milagre do sangue da coisa que habitava sob seu comércio. Os imortais, não conseguiam ver, ou avaliar a angústia e o sofrimento dos lacaios quando traiam seus senhores, mesmo que persuadidos por meios sobrenaturais. O poder vampírico não era como uma magia, ao menos não a maioria, eles são apenas extensões das vontades do monstro consciente, e a disciplina da Dominação, com suas hipnoses e costuras mentais simplesmente ocorreriam.
De posse das chaves do estabelecimento comercial, das portas escondidas e da posição de Ingrid, a Gangrel, a Coterie partiu, deixando dois humanos aos prantos, sem memórias dos acontecimentos imediatos, mas com uma angústia tão imensa nos corações, que jamais conseguiriam se perdoar, mesmo não tendo ideia do porquê. A criança certamente morreria, eles sabiam em seu âmago.
Chegaram ao estabelecimento, Urt ficou do lado de fora enquanto Torrado, Cavalcante e Pastor entraram.
Martins suprimiu o som de suas ações e abriu a porta como se nada houvesse ocorrido. Desceram então uma escadaria, até uma segunda porta. A escuridão era plena, a noite era fria, o ar era seco, a preocupação era real.
Ao abrirem a porta sentiram o cheiro de sangue velho, de roupas usadas, de pequenos animais sem vida.
Foi Torrado que ouviu o som quase inumano vindo de um canto. O Pastor comandou a escuridão a se revelar e viu através do mais pleno breu. A figura era magra, cadavérica até, cabelos desgrenhados que não viam cuidados há muito tempo, o corpo em posição acuada, a visão era assustadora e sobrenatural. Seus olhos ficaram vermelhos e Ingrid, observou atentamente aqueles que invadiram sua casa, seu lar, seu refúgio. Quando os invasores insinuaram entrar e ligaram a luz, Ingrid se colocou em movimento. Quando o sangue amaldiçoado fluiu para dentro de seus mirrados, mas poderosos músculos, ela correu, passou pelos invasores, subiu as escadas e lá em cima fechou a porta, obstruindo-a com um grande e pesado freezer. Do ponto de vista da Sentinela Escarlate, tudo o que perceberam, assim que a luz foi ligada, foi que o par de olhos vermelhos desapareceu, o corpo cadavérico sumiu, uma rajada de vento passou por eles, em direção às escadas e então ouviram a porta se fechar logo acima. Quando se viraram, ficaram desnorteados com a situação e correram escada acima.
A porta fechada e obstruída os atrapalhou. Tentaram forçá-la. Quando estavam quase conseguindo abrir a porta, ouviram o grito de Urt.
Quando finalmente conseguiram sair, viram Eli caído, com enormes marcas de garras na face, pescoço e na barriga. Pastor Israel começou a carregar o Tremere para o carro, enquanto José Cavalcante e Torrado Martins correram atrás da fera insana.
Viram Ingrid, com um salto, chegar ao terceiro andar de um edifício próximo, para então entrar pela janela.
Correram em direção à portaria. Inicialmente tentaram argumentar com a voz que vinha de trás do vidro blindado, mas não adiantou. Quando estavam para pular as catracas e entrarem no prédio, ouviram a voz de assombro do porteiro. Pelas câmeras de segurança do condomínio, ele viu a porta do apartamento 312 sendo destruída e uma figura sombria e cadavérica descer as escadas, até chegar ao estacionamento, onde arrebentou o vidro lateral de um carro e nele entrou. O porteiro começou a chamar a polícia quando então viu o carro roubado partir em alta velocidade pátio afora, destruindo o portão principal e ganhar a rua, acertando um carro estacionado do outro lado da pista e, com gana, pegar via secundária em alta velocidade.
Pastor Israel foi com o carro até Martins e Cavalcante, que entraram no veículo. Martins assumiu o volante e iniciou uma perseguição.
Não havia leis de trânsito, não havia regras a serem quebradas, havia a habilidade do Nosferatu contra a vontade de fugir da Gangrel. Nos dois primeiros quilômetros, tanto presa quanto predador, mostraram suas habilidades e até onde estavam dispostos a ir para fugir ou agarrar seu alvo.
O perigo no trânsito era imenso. Pedestres corriam desesperados para tentarem se esconder, carros de famílias eram jogados para fora da pista, pessoas gritavam desesperadas quando os dois carros passavam em alta velocidade próximas a elas.
A perseguição ocorreu por quilômetros, até que Ingrid jogou o carro sobre o paralelepípedo, atravessou o gradeado e entrou com tudo no parque de Águas Claras. Martins não viu escolha, foi atrás, entretanto perdeu o controle errado e o carro capotou, uma, duas, três vezes, mas ainda parando de pé.
Desceram do carro semi destruído e viram que o destino de Ingrid também não foi dos melhores, ela havia acertado em cheio uma árvore.
Quando chegaram ao carro onde estava a Gangrel, não viram ninguém, ela havia saído ou desparecido, e então Pastor conseguiu vislumbrar a claudicante figura inumana andando a alguma distância.
Martins e Cavalcante empunharam suas armas em direção à Gangrel, enquanto Pastor Israel tentou argumentar com a mente atormentada da fera.
As palavras bem colocadas, a entonação de voz do experiente religioso das trevas, a confusão na cabeça da vampira, fizeram-na ponderar por um instante que talvez houvesse outra solução para suas aflições e ações irracionais, uma solução onde não precisaria mais fugir, que talvez pudesse confiar, todavia quando viu os dois homens com armas na mão, o monstro interior falou mais alto e o frenesi de ódio aflorou.
Ingrid mais uma vez desapareceu de onde estava, mas dessa vez não fugiu, ela surgiu em frente ao Pastor Israel.
As unhas da Gangrel haviam se transformado em armas pontiagudas, grandes e letais que perfuraram profundamente a carne do religioso e o fizeram gritar de dor e sofrimento. Cavalcante e Martins atiraram, não importando onde fossem acertar, se em Ingrid ou no próprio Israel. O Pastor tentou se libertar daquela dor aguda que começava a lhe roubar os sentidos, chamou as sombras para lhe ajudar, e quando quase havia conseguido evocar seu poder proibido, a fera mais uma vez rasgou-lhe, dessa vez o braço esquerdo, arrancando-o, e com ele, continuou a bater no Pastor até que o vampiro caiu. Os tiros de José e Torrado não pararam. Ingrid apenas virou sua face macabra em direção aos dois e mais uma vez sumiu, aparecendo ao lado de Martins.
Era perceptível que a oponente venceria mais uma vez, mas também era perceptível que ela já não aguentaria mais tantos castigos. A própria fome a consumia. A maldição lhe dava força, mas lhe roubava a capacidade humana de raciocinar.
E como antes, enquanto estava engalfinhada com Torrado, José recarregou a arma e disparou incessantemente contra os dois. Ele sabia que se Torrado caísse e Ingrid ainda estivesse de pe, ele seria o próximo. Um desespero tomou conta dele e ele começou a correr em direção aos dois, atirando e correndo.
Ingrid e Torrado estavam no chão, caídos. O olhar rubro de Cavalcante o impediu de avaliar a cena e ele começou a dar coronhadas na cabeça da Gangrel, uma atrás da outra. Foi então, após um longo período de castigos, que ele deu conta de si e de que a polícia estava a caminho e os eventuais caminhantes noturnos do parque estariam com seus celulares em mãos.
Ajudou Martins a se levantar. Pegaram Ingrid e jogaram dentro do destruído veículo, torcendo para que tivesse ainda forças para uma última partida. Voltaram e auxiliaram Israel.
Com o arremedo de carro que estavam, saíram do parque. Entraram em uma rua periférica e roubaram um novo carro.
Conseguiram sair de cena. Talvez não intactos, mas saíram.
Cavalcante deixou a todos na entrada secundária do refúgio da Sentinela Escarlate e desovou o carro em uma rua paralela.
Martins e o destroçado Pastor Israel trancafiaram Ingrid na cela e depois levaram o extremamente ferido Eli Urt para seu quarto. Ao saírem não notaram o dantesco homúnculo que começou a limpar seu mestre.
Vestida de forma elegante, beijando o estilo gótica suave, com a maquiagem tão perfeita quanto conseguiu, ornamentada com delicadas joias, ainda presentes de seu Senhor, Catarina Oliveira chegava sozinha à reunião do clã Toreador.
Assim que entrou foi recebida por Hiram Borba, a Harpia, que lhe teceu elogios grandiloquentes e repletos de sorrisos, os quais Catarina sabia serem falsos.
Logo foi levada até Pierre, o primogênito, que estava conversando com a Valentina Ferreira, uma proeminente membra do Clã da Rosa.
Assim que chegou ao primogênito, Catarina já o abraçou e beijou o rosto, buscando aprovação de todos com seu ato.
Certamente não percebeu os olhares assustados e repletos de julgamento dos outros vampiros, principalmente da Harpia.
Educadamente, Pierre iniciou uma conversa agradável com os três, mesmo Catarina tendo chegado como chegou. Ela era a rainha de sua própria existência, ela sabia que era a mais bela, que não precisava de espelho mágico para encantá-la com palavras doces. Ela sabia que não haveria uma Branca de Neve para roubar-lhe o posto. Ela sabia que apenas sua aparência era suficiente para fazê-la bem vinda em qualquer círculo social, principalmente entre os Toreadores. Ela sabia, mesmo os outros não necessariamente sabendo.
A conversa entre os quatro foi animada, com entremeios e sorrisos. Pierre, Valentina e Hiram massageavam o ego de Catarina, por sua aproximação com a Arconte Nyala Kintu, e também a torpedeavam com questionamentos que pareciam inofensivos, mas que carregavam nuances maquiavélicos e sutilezas azedas vestidos de perguntas inocentes, questões triviais e elogios abertos. Foi assim que Catarina, encantada com a beleza e a elegância de seu Clã, revelou os lugares onde levaram a Ventrue, mesmo não contando o que foram fazer nessas localidades.
Foi então que Lavínia de Almeida, uma Toreador com o charme new wave dos anos oitenta, se aproximou e, Hiram fez questão de apresentá-las. O domínio do Guará, um dos lugares onde a Sentinela Escarlate havia levado a Arconte em suas noites na cidade, era outorgado a Lavínia. O incidente com o jovem na porta da boate Clair de Lune voltou à mente de Catarina e logo começaram a conversar. Pierre e Valentina aproveitaram a distração da mantenedora da Máscara e foram continuar sua conversa previamente interrompida.
Catarina tomou educadamente a palavra, pedindo desculpas pela invasão do domínio de Lavínia, e se assombrou quando, no lugar de uma rispidez talvez deselegante, recebeu dela um pedido de desculpas pela ação incivilizada de um morador de seu domínio. Aquilo satisfez Catarina e elas começaram a conversar, sob os ouvidos e olhos atentos da Harpia. Até que Lavínia, com seu jeito de vocalista ascendente no submundo musical de uma época que muitos gostariam de esquecer, conseguiu fugir com a linda Catarina e se puseram a trocar, tantos elogios quanto informações suaves. Conversaram sobre a história de Brasília, sobre o idealizador vampírico, o renomado senhor Afonso Beloto de Assis, sobre a ascensão de Phelippe Mistral Ferrier, o antigo príncipe, e como ele desistiu de suas obrigações, deixando tudo e indo para Paris. Conversaram sobre como foi a elevação da Era Tremere em Brasília, onde praticamente todos os postos de renome eram controlados pelo clã dos magos; e como a Querida Beliza Gregory colocou ordem na cidade, mesmo com os perigos que se desenhavam no horizonte; até os acontecimentos do final do milênio e a mudança assustadora que se deram nas coisas. Conversaram sobre música, danceterias, nomes importantes e sobre a beleza de ser Toreador.
A reunião continuou por várias horas, onde todos dançaram, sorriram, fofocaram, se alimentaram, mostravam-se como um mais importante do que o outro, como verdadeiras obras de arte, até que um pequeno, mas não irrelevante, incidente aconteceu. Uma discussão entre dois membros do Clã, Isabel Vilasques Lacerda e Dr. Isaac Campos, Senhor e Cria. Com a destruição de uma bela peça de porcelana, ambos saíram da reunião e partiram, deixando a Harpia cheia de coisas para fazer.
Ao final da noite, quando o impiedoso astro rei já prometia devastar o mundo com sua luz bendita, Catarina finalmente chegou ao seu refúgio. Em seu rosto a maquiagem não estava mais tão perfeita, talvez uma mecha ou outra de seu cabelo estivesse fora do lugar. As danças, lábios e toques haviam sido vários e todos satisfatórios. Seu Clã era perfeito. O sorriso em seu rosto era de satisfação, até que viu os membros de sua coterie sentados à bela e charmosa mesa de mármore, sem nenhum adereço. Seu rosto transfigurou quando viu o estado lastimável de Pastor Israel, José Cavalcante e Torrado Martins. Sobre Urt apenas ouviu histórias. De Ingrid, sequer teria tempo para observá-la em sua cela. Era tarde e eram obrigados por sua maldição a adormecerem. A fome perturbaria aos que enfrentaram a Gangrel.
Deus precisaria ter pena dos humanos que alimentariam aqueles vampiros.
Personagens
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra]
Ingrid Menezes Ortis - Gangrel;
Hiram Borba - Toreador - Harpia;
Pierre Toussaint Gaudez - Toreador - Primogênito;
Valentina Ferreira - Toreador;
Lavínia de Almeida - Toreador;
Isabel Vilasques Lacerda - Toreador;
Dr. Isaac Campos - Toreador;
Afonso Beloto de Assis - Toreador - ex-Primogênito;
Phelippe Mistral Ferrier - Toreador - ex-Príncipe;
Beliza Gregory - Tremere - ex-Príncipe;
Nyala Kintu - Ventrue - Arconte;
Divino Moura - humano - comerciante;
Joana Moura - humana - comerciante;
Luiz Pareto - carniçal.
Sistema:

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