A ilha perdida de Syrneth - [Uma história do 7º Mar]
A batalha havia chegado ao fim já a algumas horas. A tripulação do Tempête Furieuse, piratas sob o comando do falecido capitão Klaus Möwe, um eiseniano cuja guerra o forçou aos roubos em alto mar, principalmente no Mar da Viúva, mostrava apenas suas faces vencidas no convés do navio agonizante, com mastros caídos, leme avariado e vários homens e mulheres mortos, após horas de selvageria e uma fracassada tentativa de pilhagem.
Do outro lado estavam os marujos do Dulcineia, o navio de bandeira de Innismore, com um capitão ussurano e com uma marinhagem mais diversa do que as paelhas de Castilla.
O destino dos piratas sobreviventes seria o de entrarem nos escaleres e rezarem aos profetas para alcançarem algum porto. Foi então que Jean leFil, o imediato do Tempête, suplicou ao capitão Vassili, o gigante, que pudessem permanecer com o que havia sobrado do navio, pois mesmo avariado ainda era o seu lar e ganha pão.
Capitão Vassili olhou para os olhos de seu associado Friedrich, cuja alma havia se perdido nas batalhas da grande guerra, e resolveu que aqueles homens, apesar de piratas, mereciam uma segunda chance. Que o destino os levassem para longe e que a vida deles fosse tirada em outra ocasião. Muito sangue havia sido derramado naquele pedaço do mar e certamente o castillano eternamente apaixonado Miguel, veria com bons olhos a benção que Vassili dispensaria aos moribundos. Não que o capitão acreditasse na fé de Miguel, mas receber as preces noturnas do devoto dos Profetas e da igreja dos vaticínios não era de todo mal, ainda mais se eles auxiliassem na jornada que ainda executariam.
O Dulcineia velejou para longe, vendo o avariado navio ficar à deriva e se perder no horizonte.
E os Profetas intercederam pelos aventureiros do Dulcineia. Nos papéis e mapas recolhidos do navio pirata, Miguel, Friedrich e Vassili viram vários mapas e anotações de navios de várias nacionalidades, de Innismore, Avalon, Montagne e até de Vodácia. As marcações e notas completavam as cartas náuticas que eles mesmos tinham e davam como certa a existência de uma ilha inexplorada além do Mar da Viúva. Para lá partiram!
Os dias se alongavam em uma placidez entediante, saber que navegavam para águas pouco exploradas, com promessas de monstruosidades marinhas e mundos perdidos não levavam animação aos marujos. Friedrich ficava atento ao comportamento dos tripulantes, principalmente aos três castillanos que contrataram ao aceitarem a missão. Um deles, de feições pavorosas, esguio e jeito sorrateiro, era o que mais fazia se preocupar - “certamente veio a bordo para pegar informações sobre Miguel e levar para a Inquisição” – pensava.
Após dias quentes viram no horizonte, entre as ondas e a umidade, os primeiros sinais de terra nova. Avançaram e viram logo próxima da praia, vestígios de habitações estranhas. Miguel mudou as feições de entediado e doentio para exasperado e ansioso! Não era apenas terra firme, que ele tanto amava, era também um posto avançado de uma civilização antiga, antes das nações de Thea! Era uma vila, quase inteira, de Syrneth.
Desceram do navio e vasculharam bem as casas e o que parecia um centro administrativo, não encontraram nada que revelasse a identidade ou a razão da existência daquele lugar. Apenas as possibilidades ficavam no ar, reforçadas por um ou outro símbolo inscrito nas paredes. Não havia sequer fragmentos de louça, porcelana, móveis ou objetos. Quem fez a mudança a fez com calma, sem deixar símbolos de suas vidas naquela vila.
Pegaram uma das casas como posto e lá pernoitaram. Na cabeça de Miguel, o que inicialmente começou com assombro e admiração por descobrirem todo um aglomerado de residências intactas se tornara um momento de desapontamento, pois não encontraram um artefato, um objeto, uma placa. Certamente ver como eram as habitações de Syrneth ajudaria muito nos estudos sobre a vida daquele povo estranho e antigo, mas um caco de um pote, com um mínimo entalhe, teria ornamentado aquele dia com a radiância de mil sois.
Dormiram. Ao menos por algumas horas, pois nas horas mortas da noite, um som amedrontador foi ouvido. Eram lamúrias sombrias que lembravam aos aventureiros e sua tripulação de dias anteriores, quando confrontaram almas descarnadas nas terras tristes de Eisen. Todos se puseram a procurar a fonte daquele sofrimento, vários deles munidos de orações aos Profetas, além de espadas e mosquetes. Nada viram. O resto da noite foi em claro.
Ao raiar do dia entraram pela floresta em direção a uma colina. Quase um dia de viagem ilha a dentro fez com que se deparassem com uma porta encrustada na pedra. Finalmente os olhos de Miguel se acenderam novamente. Ele conhecia as inscrições e os procedimentos de templos de Syrneth. Desvendou as inscrições e destravou a porta. Todos se maravilharam. Viram em uma caverna várias estátuas de heróis e deuses antigos daquela civilização. Por dois ou três ambientes observaram mais e mais estátuas, inclusive uma de um homem-baleia, criatura assustadora e enorme, que tiveram o desprazer de conhecerem em uma ilha a dias de distância.
Finalmente haviam encontrado o tesouro que tanto procuravam, aquelas estátuas valeriam fortunas! E foi então que viram o profundo portal etéreo, que daria para um novo cômodo, além da imaginação daqueles navegantes.

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