Por Todas as Noites Áridas - Sessão 7

Cobra-se favores, faz-se favores. Pequenas dívidas que poderiam se acumular e se tornarem impagáveis em um futuro, permitem que nomes e lugares sejam revelados. Finriel Mabus utiliza alguns conhecidos para saber exatamente onde está Dédalo, e de posse da informação ele, Hiram Borba e Rodrigo Dantas partem para algumas quadras de distância. Minutos antes, Estevão Matarazzo havia recebido uma ligação e disse que encontraria com os três depois, se tivesse sorte...

Foram onde Dédalo estava. Quando chegaram à comercial da entrequadra 115/116 sul viram o bar Esquina 116. Cinco mesas distribuídas pela área comum do prédio comercial, quatro delas cheias, com pessoas alegres, sorridentes e de falar alto. Em uma mesa mais afastada viram um homem com idade próxima dos sessenta anos, em forma, mesmo com alguns quilos a mais, com a barba muito bem feita e o cabelo bem cortado e penteado, já no limite de precisar de novo corte. Suas roupas, apesar de ditarem um estilo datado eram alinhadas e casavam bem com o novo século em seu senso de estética. Dédalo era um homem carismático e bem apessoado.

Finriel e os outros se aproximaram da mesa e logo num início de conversa, que teve palavras sinceras e diretas, recebem o convite para dividirem um tira gosto e auxiliarem a finalizarem uma garrafa de bebida.

Dédalo concorda em levá-los a uma das entradas do labirinto.

Foram para o setor comercial sul, próximos do bloco “J”, lugar que Dédalo disse estar a entrada . O lugar estava vazio e silencioso, muito mais pelo tarde da hora. Mesmo as almas perdidas não eram vistas ali. Enquanto aguardavam a chegada do homem, conversaram sobre suas linhagens, sobre imperadores feéricos e sobre o sangue sorvidos pelos vampiros. Conversaram sobre territórios e a inexorável fidelidade de uma alcateia de lobisomens. Lá esperaram Dédalo no estacionamento aberto. Quando Dédalo finalmente chegou, desceu do carro com um andar firme, deu uma nota volumosa a um mendigo guardador de carros, dispensou a das prostitutas que o abordou e se dirigiu ao carro onde estavam Mabus, Dantas e Borba. Os três podiam jurar que até aquele momento, ninguém estava sequer próximo do estacionamento. Dédalo sorriu e os convidou a caminharem um pouco mais para dentro do Setor Comercial Sul.

À medida que avançam pelo SCS, mais pessoas iam surgindo. Um vendedor num canto, um casal em fortes emoções apoiados em uma pilastra, um menino com uma caixa de engraxate nas costas.

Chegaram a uma banca de jornais onde Dédalo comprou uma revista e algumas raspadinhas, que logo colocou no bolso.

E finalmente chegam ao prédio onde Dédalo dizia ser a entrada do labirinto. Entraram então no velho elevador, típico exemplo dos anos sessenta, que tremeu caracteristicamente no início de seu movimento.

O elevador desceu, ou extremamente lento ou bem mais do que um ou dois subsolos que seria fisicamente possível e comum num prédio comercial desses mais antigos, do começo da construção da cidade. Quando a porta se abriu um som mecânico eletrônico, uma batida ritmada de alguma boate foi ouvida de forma abafada, com se estivesse próxima dali. Um corredor comum foi visto à frente, com portas fechadas à direita e a esquerda. Logo no começo do corredor viram uma mulher com uma caixa de isopor grande e muito limpa, que vendia cerveja gelada, cigarros, balas e chicletes. Compram algumas latas de cerveja e Dédalo comprou também dois cigarros picados. Mais à frente no corredor cinco mulheres nuas dançavam ao redor de um pentagrama desenhado no chão. Elas possuíam idades variadas que iam de 14 a 70 anos, ao menos em sua aparência. Sorte que Matarazzo não se encontrava ali entre eles naquele momento, pensaram, pois certamente ele gostaria de analisar melhor a dança e talvez exterminar as mulheres que poderiam muito bem ser cultistas adoradoras de seres das profundezas.

Continuaram.

Dédalo então chegou à derradeira porta e antes que ele a abrisse, informou aos três seres que ali estavam que para entrarem no labirinto deveriam se concentrar em um único objetivo, uma única pergunta, para realmente encontrarem uma resposta em comum. Caso contrário poderiam se perder naquele lugar e talvez nunca mais se encontrarem. Apesar das advertências apocalípticas de Dédalo ele disse para não se preocuparem tanto e apenas buscarem a resposta do que precisavam, em consenso, e que se por algum acaso eles encontrassem um rapaz ferido e queimado lá dentro, dissessem a ele que seu pai estava com saudades. Ele então abriu a porta e as três criaturas entraram. Guiados por Rodrigo eles avançaram entre corredores, portas, túneis e lugares que os fizeram duvidar de sua própria sanidade. Ao abrirem uma porta, por exemplo, o sol estava próximo, num meio dia imperioso e mortal. Se não fosse a velocidade de pensamento e resposta física imediata de Rodrigo, Hiram teria se tornado uma lembrança em forma de cinzas.

Andaram ainda mais naquele lugar até que, perdidos, são avistados por um Minotauro. A fera os desafiou e urrou e riu deles e com sua força sobre-humana desferiu um soco em Rodrigo que foi arremessado pelo corredor até atravessar a porta do lado oposto. Do outro lado da porta, num quarto com enormes janelas, Rodrigo viu a lua cheia em seu esplendor prateado e seu corpo tomou a forma da mais violenta das bestas, o lobisomem!

Ele pulou sob o pescoço do minotauro que cedeu a vitória em troca de sua vida e de levá-los até a detentora da resposta para a busca.

Liderados pela criatura do labirinto eles andaram bem menos do que imaginaram e chegaram a um pequeno templo no coração da estrutura. Lá se depararam com uma mulher sem olhos, com grandes sulcos em seu rosto, mas que as pálpebras conseguiam se fechar normalmente. Ela se apresentou como Cassandra e pediu que preenchessem um cálice com sangue. Hiram, tão acostumado ao rio da vida, foi o primeiro a colocar uma grande quantidade de sua vitalidade no cálice, seguido por Rodrigo e por fim Mabus, que terminou de encher a taça com seu sangue azul cobalto. O cálice quase transbordou.

Cassandra então pegou o cálice e levou à boca, sorvendo o líquido viscoso com voracidade.

Então ela respondeu exatamente à pergunta que Rodrigo Dantas fez: quem eram as pessoas que fizeram o ritual no coração do território protegido por ele e onde elas poderiam ser encontradas.

Ela falou os nomes do homem “Afanásio Mesquita” e das mulheres “Cláudia Lucilla” e “Electra”. Disse que eles são seguidores de Andromálius e estariam no setor de grandes áreas norte, na quadra 610. Lá estiveram ontem. Lá estavam hoje e lá estarão amanhã.

Após agradecerem a Cassandra são guiados ainda por Minos, o minotauro, e vão em direção à saída. Pouco antes de saírem, eles veem um homem machucado e queimado, com penas chamuscadas unidas a um metal junto à sua carne, como se fosse uma coisa só, de forma dolorida e não natural, ele enrolado em um cobertor de doação. Minos disse que aquele era Ícaro, filho de Dédalo. Pararam então em frente ao pobre infeliz e disseram a Ícaro que seu pai sentia saudades. Ícaro, com a voz fraca, agradece e lhes passa uma moeda de ouro, com o símbolo do sol em um lado e sua própria efígie do outro lado. Mabus pega a moeda que estava quente. Quente como um dia ensolarado. A morda começou a esfriar aos poucos. “Diga a meu pai que o amo e que me arrependo de não tê-lo ouvido” foram as palavras do rapaz.

Finriel, Rodrigo e Hiram então saíram do labirinto. A noite estava próxima de seu fim. Rodrigo sabia onde buscar sua caça.

Personagens dos Jogadores
Hiram Borba Marques: vampiro;
Finriel Mabus: fae;
Estevão Matarazzo: caçador;
Rodrigo Dantas: lobo. 

Personagens não jogadores
Dédalo: o construtor, potente;
Minos, o minotauro, selvagem;
Cassandra, a oráculo, potente;
Ícaro, o caído, mortalidade.

Sombras Urbanas
Por todas as noites áridas



Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 26 [Vampiro a máscara 5ª edição]

Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 42 [Vampiro a máscara 5ª edição]

A ilha perdida de Syrneth - [Uma história do 7º Mar]