Daiane Damasceno - Godsend Agenda RPG


O quarto era seguro, ela o tornava seguro. Infelizmente seu corpo já não respondia aos estímulos de seu cérebro como ele costumava fazer antigamente. Sua percepção era embaçada pelos constantes remédios que tomava, entretanto ela não reclamava mais deles, uma vez que a faziam se desconectar dos horrores que passavam em sua mente, quando não estava dopada.

Há mais de uma semana que eles não amarravam mais seus braços e suas pernas na cama. A sensação de liberdade era gostosa. A alguns dias também lhe foi permitido subir, acompanhada claro, e desfrutar do bonito jardim no alto do prédio. O sol às vezes lhe tocava a pele e dava uma sensação de paz. Outras vezes eram os pingos de chuva que ela chamava. Ester, a enfermeira, deixava que dançasse na chuva entre os lírios e azaleias.

Ela sentia falta de alguém ou alguma coisa, não lembrava direito, mas era uma falta grande, um enorme buraco que não era preenchido e que se desfazia com a medicação. Contudo, lá no seu íntimo, mesmo nos sonos dopados e nos afazeres medicados, ela sabia que algo faltava, ou alguém.

Depois do incêndio em seu quarto, houve uma grande reforma e os trabalhadores apagaram todos os símbolos de proteção que ela havia desenhado e talhado cuidadosamente nas janelas, portas e nos cantos das paredes. Ela não queria voltar ao quarto sem as proteções, ela protestou, brigou, se debateu. Infelizmente não a entenderam novamente e a amarraram mais uma vez.

“É para sua proteção, Daiane, não brigue conosco. Você se machuca demais e isso nos deixa triste. É para o seu bem.”

Por dois dias ficou presa. Quando a desamarraram ela estava mais calma, com a cabeça no lugar. Ainda faltava algo, mas ela agora tinha outro plano, se não deixavam que protegesse as portas e janelas, ela protegeria a cama! Conversou com Ester e explicou que ficaria quieta e calma se pudesse desenhar nas ripas do estrado da cama. Ester não gostou, mas permitiu. Ester era uma boa mulher, companheira e de sorriso calmante.

“Tudo certo, mas você tem que me prometer que não vai estragar nada, tá bom?”

Por dois dias, sempre que a medicação diminuía seu efeito, Daiane desenhou sem estragar nada, enquanto murmurava baixinho, incessantemente, as magias guardiãs.

Já tinha tanto tempo que não estava amarrada que seus pulsos nem suas pernas doíam mais. As marcas roxas haviam desaparecido e até a comida estava mais saborosa, mesmo com o vazio em seu peito.

À noite ela dormia sem sonhos…

Até que certa vez acordou sobressaltada! De sua janela ela viu o clarão no alto do edifício Itália, viu um pequeno risco cruzando do topo ao chão.

Começou a gritar e pular na cama. Os enfermeiros não conseguiam acalmá-la. Ela não se lembrava mais de nada. Quando acordou, estava mais uma vez amarrada, mas em outro quarto. Tentou inutilmente se debater, forçar, quebrar as correias que a seguravam, mas sequer se movimentava. Em sua mente ela destruía todo o lugar, mas sabia que seu corpo não se movia nem um milímetro. Estava amarrada por completo, tanto física quanto medicamentosamente. Ester trocava sua comadre. Ela amava Ester como a uma irmã. Ester, sempre tão carinhosa.

Ao final de uma semana foi finalmente desamarrada. Ester passeava com ela pelo terraço, empurrando a cadeira de rodas. Limpava a saliva que descia de sua boca, trocava sua fralda, lia, contava histórias, assitia televisão e cantava para ela.

As noites sem sonhos sucediam uma à outra.

Estava calma e em seu quarto.

“Daiane! Acorde!”

A voz era imperiosa. Daiane acordou, mas não sobressaltada como da última vez. Os sonhos e o desespero de tempos passados estavam ali, à sua frente.

No quarto uma luz azul esverdeada brilhava por baixo de sua cama, emprestando uma claridade sinistra ao quarto minimalista. Seus lençóis tremulejavam como se um vento distante e misterioso os possuísse. Seu corpo encontrava-se um centímetro acima de do colchão. Seus olhos abriram, brancos, iluminados com o fogo de sua alma.

“Seu filho está perto de atravessar o abismo entre esse mundo e o último caminho! O incitei, xinguei, ofendi, fiz de tudo para que não partisse, mas ele resolveu ir. Você me deve, mulher. Você e todos os outros me devem! Não partirei sem cobrar minha dívida! Ajude-o agora! EU EXIJO!”

Ela tinha um filho? O vazio em seu coração se tornou um rosto triste, abatido e jovem, seu filho. Ela estendeu a mão, com determinação e objetivo. Quebrar a barreira chamaria a atenção de outros, mas seu filho precisava de sua ajuda.

Sua mão tocou a mão do pequeno jovem perdido na plena escuridão e ela a guiou para a segurança. Davi Damasceno havia despertado do coma.

A luz no quarto de Daiane desapareceu, o tremulejar dos lençóis parou. A janela abriu. Daiane sentou-se à beira da cama.

A face de John Portier estava à sua frente.

“Ah. Sem proteções nas janelas, nem nas portas, nem nas paredes. Dessa vez foi fácil demais. Você exauriu suas forças, Daiane, nem as marcas sob seu colchão serão capazes de me afastar agora. Seu filho me atrapalhou da última vez, pegou o diário, mas dessa vez eu pegarei é você!”

As cortinas me moveram com o vento brando. Não sobrou ninguém no quarto.

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Godsend Agenda RPG
Delta City, a cidade dos heróis.

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