Do tempo do embaixador gelado e do exilado furioso nas terras verdes e encantadas de Éire. (parte 1)
Do tempo do embaixador gelado e do exilado furioso nas terras verdes e encantadas de Éire
(uma fanfic sobre lobisomem, o apocalipse, na idade das trevas)
Pouco tempo havia se passado desde a Batalha de Fiodh-an-Átha e o Caern da Pedra dos Sonhos ainda tentava se recuperar do avassalador golpe que receberam dentro de sua própria casa. A batalha resultou no extermínio de vários parentes e quatro garou da mesma matilha caíram perante os malditos da Wyrm que fortaleciam as tropas inglesas. O combate foi ferrenho e brutal e a líder do Caern, Niamh Cinn Oir, havia lutado bravamente, a despeito do cuidado excessivo dos machos de sua tribo, pois para eles a gravidez era muito mais próximo de uma doença do que de uma dádiva. Em seu ventre ela levava seu filho, e ele carregaria a benção de Mãe Gaia e seria um lobisomem, um do povo, ela sentia em seu coração e dele seria a responsabilidade de lutar por aquele mundo e ela não furtaria de sua prole a glória de estar em batalha antes mesmo do nascimento.
Com a graça da Mãe os membros do Caern foram vitoriosos. Cantos e honrarias foram erguidos pelos valentes que deram suas vidas pelo povo. Aos vivos as glórias. Oisin Amhrán-Oíche, o segundo em comando, estava apreensivo com a situação de Niamh. Mesmo com todas as capacidades que os garou possuíam, os castigos tanto físicos quanto espirituais que Cinn Oir havia recebido, a deixavam no limite. A criança precisava nascer e em breve Niamh seria obrigada a peregrinar para terras mais ao sul e cumprir obrigações que sua família cultuava a dezenas de gerações. Os outros membros não entenderiam a ausência de sua irmã, então caberia a ele conseguir uma solução para seus problemas familiares, políticos e religiosos.
As orações aos celestinos eram muitas. Por vários dias passou ao lado de Aodhan Rei de Dois Mundos, na esperança de que os conhecimentos profundos da umbra e dos desígnios dos espíritos possuídos por ele fossem uma luz na escuridão de seus temores. O garou é acima de tudo um devoto e ele sabia que sua guerra contra o Verme o torna digno. E é justamente por ser digno que por cinco noites de orações, três servos dos patronos das tribos vieram até ele em sonho e na sexta noite ele os viu na umbra. O cervo, o lobo gigante e o falcão lhe visitaram. Uma dádiva digna de poucos. Rei de Dois Mundos se admirou com as visitas e a majestade daqueles espíritos. Oisin ajoelhou-se em respeito e ouviu, mesmo que com palavras enigmáticas, pedaços dos destinos que os grandes totens tinham, não apenas para os Fianna, filhos da Irlanda, mas principalmente para dois estrangeiros que aportaram nas terras verdes e encantadas de Éire.
Os estrangeiros haviam chegado a não mais de três dias. Um deles tinha uma linhagem nobre que alguns diziam remontar ao impergium, o outro tinha o sangue dos heróis em suas veias, apesar de seus olhos, que possuíam uma tonalidade entristecida, como se estivesse lá muito mais pela obrigação do que pela vontade.
A jornada já havia lhes roubado dois companheiros em um naufrágio, poucos dias antes, quando se encontravam na terra dos Fenrir. Os lobisomens nórdicos viram a jornada de Alexandr Ivanov e Ingvar Oleg com olhos ruins. Alguns deles culpavam, mesmo que em silêncio, Ingvar, pela morte marítima dos Fianna. Para eles, Oleg era amaldiçoado, e enviá-lo para longe seria o melhor. Que os fracos Fianna assumissem aquele encargo sombrio. Julgar e executar Ingvar não seria de bom tom entre os jarls.
Aleksandr Ivanov, Presa de Prata, Filodox, nascido sangue dos grandes heróis, havia sido escolhido para uma missão muito além das fronteiras da gelada terra do Grande Ducado Moscovita. Aceitou o encargo de embaixador dos Presa de Prata na Irlanda, entre os Fianna. A despedida havia sido longa e repleta de tantos protocolos que somente os de maior escalão saberiam discernir o que foi correto e o que foi errado nos jeitos, palavras e rituais da cerimônia antiquíssima.
Ingvar Oleg era um dos guerreiros Fenrir mais espetaculares. Audaz e valente, nascido na lua cheia e com um segredo sombrio que roubava um pouco a luz de seus olhos. Sempre no limite de sua visão estavam seu inimigo jurado e o fantasma de seus erros passados. Quando virava o rosto para encarar seus lamentos, faltava-lhe velocidade suficiente ou talvez vontade. A coragem ele carregava consigo, contudo existiam problemas tão particulares que não poderiam ser sequer mencionados, nem mesmo ao outros de sua espécie, sem que um machado de prata pudesse fitar seu pescoço, e de forma verdadeira, ele sabia.
Apesar das palavras agourentas propagadas pelos Fenrir e a viagem entre a Noruega e a Irlanda dando-se em águas de ondas e ventos flagelantes, Ingvar estava acostumado com aqueles ventos e o mar bravio. Seu companheiro de viagem, e futuro alfa, tinha certeza dessa designação devido ao sangue a aos títulos dele, preferiu refugiar-se em uma cabine, pois era um ser da terra firme, jamais havia enfrentado um dos maiores aliados dos nórdicos, o mar. Oleg se divertia, com o sabor do vento e o odor do sal. Aquilo ele teria mesmo em águas distantes de sua terra natal e pegou para si esse véu de lembrança.
Chegaram a Carraig Fhearghais no final do verão e a temperatura era considerada demasiadamente quente tanto por Aleksandr Ivanov quanto por Ingvar Oleg. A cidade era bem guarnecida com soldados ingleses e apinhada de gente de cabelos vermelhos e um sorriso frio e falso. Os odores eram tão fortes quanto em quase todas as cidades costeiras e o que mais tornava única eram as palavras pesadas em língua irlandesa encravadas nas pedras do castelo, bem nítidas para os poucos que sabiam ler. Eram palavras contra os ingleses e palavrões que deixariam envergonhados os mais viajados dos Roedores dos Ossos. Pegaram as poucas bagagens que tinham e se encontraram com um ragabash dos Presas de Prata chamado Aine Explorador Sob o Luar.
Ao vê-los, Explorador Sob o Luar, fez uma reverência tão grande e tão respeitosa que mesmo o príncipe Aleksandr Ivanov ficou aturdido. Não que mesuras não fossem necessárias, elas eram e aquela lhe era devida, mas porque o homem que a fez era ragabash e mesmo a maior das honrarias, quando vindo de um ragabash, deve ser observada por vários ângulos e nuances. Ao se erguer da polida saudação, o homem tratou de impor a agenda. A língua que ele usava era uma mistura do inglês com o gaélico e o nórdico, muito comum na região.
- Bom dia, meus lordes. Espero que sua jornada tenha sido boa. Eu sou Aine Explorador Sob o Luar, da matilha Vigias Cinzentos. As palavras que ouvi dos viajantes nesses dias é que os ventos estavam fortes e os espíritos do gelo e da primavera iniciavam sua luta. Sou obrigado a admitir que quando não chegaram a três dias pensei que o destino de vocês havia sido o mesmo de Ciara Arco da Noite e Liam Caça Wyrm. Os espíritos do mar nos contaram que eles descansam nos braços da Mãe, após um desastre marítimo. Por isso vocês não os encontraram na Noruega. Mas venham. Venham. Sei que acabaram de chegar, mas em breve o equinócio de outono nos abraçará e não podemos perder os rituais do Caern. Seria um desrespeito. Melhor partirmos de imediato e, com sorte, pouco após o cair da noite, chegaremos a Aislingí Cloch, Caern da Pedra dos Sonhos - não deixando espaço entre as palavras e as ações, Aine pegou de imediato as bagagens de ambos e partiram - deixem comigo, é um prazer.
Não houve quase nenhum ritual após. Os três garou comeram algo no porto mesmo e logo em seguida se colocaram a andar. Explorador Sob o Luar fazia questão de escutar as histórias de glórias e honras daqueles dois estrangeiros tão familiares. Seu sangue era Presa de Prata e ouvir as histórias do filho legítimo do senhor do Inverno moscovita era engrandecedor. Assim como também era fascinante as histórias das guerras das terras e das águas geladas contra a Wyrm no extremo norte. Apesar de menos verborrágico que Aleksandr, Ingvar sabia dar tonalidades avermelhadas às suas canções.
Assim que puderam puseram os mantos de quatro patas, deixando para trás a forma dos homens e tomando uma veste mais apropriada para longas jornadas. Aleksandr uivou forte para que aquela nova terra soubesse que havia chegado.
A caminhada entre Carraig Fhearghais e Armagh tomou todo o correr do sol. Deixaram as habitações e imundícies humanas e adentraram em uma paisagem bucólica e logo em seguida a terrenos com bruma densa e cheiros esotéricos que davam a impressão de estarem não no mundo da carne, mas em algum reino distante da Umbra. Já de início os dois estrangeiros perceberam que aquele lugar verde, que iniciava os tons alaranjados, era de tonalidades e jeitos muito diferentes de suas terras natais.
O Caern era modesto, organizado de uma forma bárbara demais aos olhos de Aleksandr Ivanov, mas civilizado em demasia para Ingvar Oleg. O odor das coisas eram estranhas e mesmo os garou, possuiam cheiros diferentes. As tatuagens mostravam suas linhagens, seus feitos, suas histórias. Os vários parentes que ajudavam nos preparativos para a vindoura festa do equinócio de outono eram semelhantes em algumas coisas com os parentes de Moscou e da Noruega, era possível ver que muitos eram mutilados ou com grandes cicatrizes, característica dos que moram ao lado dos heróis de Gaia. Quando Aine Explorador Sob o Luar chegou com os dois estranhos, os parentes diminuíram o ritmo do trabalho e observaram com atenção os novatos. Havia, claro, lobisomens de outras tribos além dos Fiana na seita, mas praticamente todos eram irlandeses de nascença, mesmo os que eram descendentes de ingleses, franceses, nórdicos ou outras raças distantes.
Aine apresentou os dois a líder da seita da Pedra dos Sonhos. Niamh não sorriu, mas não fez caras de desaprovação nem agiu com muito desrespeito. Olhou os recém chegados de cima à baixo e fez questão de cumprimentá-los à moda dos irlandeses para que eles lembrassem que estavam longe de sua origem. Tratou-os bem e citou seus nomes quando subiu no altar montado ao lado da sagrada pedra que era o coração do Caern, mas a lua nova em sua essência fez com que não citasse os feitos nem dos que vieram antes deles, em seus sangues. Isso seria papel deles. Que eles se vangloriassem e enaltecessem seus ancestrais e seus feitos, a ela cabia o direito e o dever de sempre questionar se os lobisomens atuais estavam à altura dos que vieram antes. Ivanov e Oleg sabiam que esse era o caminho dos ragabash. Apesar de acharem estranho uma mulher prenha no início do outono, e possivelmente parindo no inverno, nada disseram, pois ela era a líder e eles eram embaixador e guerreiro.
Os dois se acomodaram e ajudaram nos preparativos para o equinócio. Os trabalhos não cessavam e os novatos na terra não fugiam de afazeres. Então, quando o sol caminhava a três quartos do céu, Niamh tomou-lhes o tempo e os levou para uma caminhada entre os principais postos do Caern. Ela falou sobre alguns outros membros da seita, apontou e apresentou os que estavam próximos. Souberam que outras matilhas chegariam para a celebração e que a maior matilha da seita era a Colina Verde, liderada por Niamh Cinn Oir e seu irmão Oisin Canção-da-Noite. Conheceram a Vingança Etérea, o Rio Curvo, a Rosa de Sangue e outras. E nessas apresentações Niamh falou sobre sonhos e os espíritos daquela terra, sobre postos e sobre família, e disse que a chegada deles não era por acaso da política das tribos, nem fruto do infortúnio. Ela demandou uma tarefa secreta, perguntando-lhes, sem explicar, se aceitariam o pedido dela para que verificassem algo que lhe era impedido naqueles dias e que, caso o fizessem não apenas a seita da Pedra dos Sonhos, mas a família de Niamh, ficaria agradecida. Ela posicionou-se de uma forma que ambos entenderam que seriam postos à prova.
Aleksandr e Ingvar pesaram as palavras da ragabash Fianna e puseram sobre seus ombros aquele pedido e o tornaram obrigação. Cinn Oir não disse mais nada sobre o que deveriam fazer, apenas indicou que encontrassem seu irmão e ele continuaria a partir dali. Ao cair da noite estiveram com Oisin, Amhrán-Oíche, Canção-da-Noite, que os acompanhou até a cabana de Rei de Dois Mundos, o theurge deles. Sentaram-se e o crepitar do fogo deu o tom da conversa que tiveram por horas. Aodhan, Rí dhá Domhan, Rei de Dois Mundos e Oisin contaram sobre os outros seres da Irlanda, sobre como os Fianna viviam em guerra e pactos com eles e como algumas famílias tinham laços mais profundos que as raízes do mundo ou a árvore Yggdrasil com algumas obrigações. Aodhan terminou uma infusão e os quatro beberam intensamente. A voz de Oisin tornou-se mais distante e o mundo ao redor foi tomado por brumas e cheiros de temperos ricos de terras além do tempo.
- Pela face de dúvida que carregam, imagino o que conversaram com a sagrada Niamh, nossa líder, e penso ela falou sobre os sonhos e presságios. Se aceitaram cegamente a missão eu observo que a disciplina de vocês seja como nas canções que nos chegam pela Lua e pelo vento. Esse era o papel dela. A sagrada Niamh não podia se expor diretamente, por isso eu me exponho. E como devem ter percebido, essa missão deve ser mantida em segredo, até dos nossos. Que os espíritos, fadas, a Mãe e Luna sejam as únicas testemunhas. Não haverá glória, já que não poderemos cantar sobre os feitos diretos, mas digo: haverá sabedoria e honra no que farão. Empenho minha palavra nisso e que minha voz suma tragada pelo Verme se eu me contradizer. - sua voz era etérea, seu rosto sincero e suas maneiras diretas. - A Irlanda é uma terra de garou, espíritos, sidhe, trolls, pixies e todo tipo de sonhos, de senhoras e de senhores de mundos. Na Irlanda há mais que um lobisomem. Certo. Compreendo que isso é estranho de se ouvir, mas a ilha é um mundo inteiro e diferente dentro de si mesma. Vocês irão para Ossory, ao sul e lá permanecerão por duas semanas. Vigiem a cidade, as cercanias, os lagos, florestas, grutas e rincões. Andem à noite e durante o dia e tenham certeza de que lá haja apenas dois lobisomens. Vejam se ambos estão vivos, isso é tudo o que ela quer saber. Se houver qualquer coisa fora do esperado, podem voltar e dizer para ela. Essa é sua missão.
E enquanto a bebida despertava novos jeitos de perceber as coisas ao redor, se viram como convidados de uma mesa farta com bolos, e frutas, e carnes, e vinhos e água pura. As criaturas que os serviam e cantavam sequer possuíam a altura de de três abóboras. Elas pareciam encarnações das estações, como o invernal e rabugento Colcú, com orelhas secas, grandes e enrugadas, cheiro de conservas e o olhar da fome que o frio trás e a primaveril Brigit com seu sabor adocicado de mel e frutas.
Ivanov e Oleg tentavam manter o semblante sério, mas a suavidade da respiração naquele ambiente místico não facilitaria as coisas. Eles, Oisin e Aodhan voltaram à presença dos outros da seita, já no dia do festival. O equinócio de outono, ou Mabon, como era conhecido entre os celtas, era muito importante naquele reino, pois os Fianna mantinham fortes alianças e pactos com coisas e seres além da compreensão dos outros garou. Como era de se esperar muitas matilhas apareceram, vestindo cores diversas, línguas diferentes e histórias grandiosas. Para Aleksandr e Oleg era como estar lá, cantando, dançando e venerando os ancestrais e a eterna luta dos filhos da Mãe Gaia contra a Wyrm que devoraria o mundo e também estar entre flautas invisíveis e comidas que não existiam. Ouviram músicas lindas e grandiosas, com histórias aterrorizantes, sombrias e deliciosas. A voz de galliard de Oisin era encantadora e não pertencia mais àquela consciência. Foram tomados pelas festividades, pelos efeitos da infusão e por muitas outras coisas. Após os três dias de festival acordaram, e viram logo ao lado Niamh Cinn Oir, que estava com um semblante de quem se excedeu na bebida durante os dias de festa e tentava parar o mundo que insistia em girar. Cinn Oir permitiu que eles a ajudassem a se levantar, abençoou a ambos pela missão que aceitaram e os viu partir em direção ao sul, ainda sob o manto do final da noite, longe do olhar das outras matilhas. Partiram em segredo.
Fim da Parte Um.

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