Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 5 [Vampiro a máscara 5ª edição]

 



Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 5

(12/03/2023 domingo) 

Torrado Martins estava nervoso, angustiado, próximo a uma crise de ansiedade. Era como se fosse perseguido pelo próprio demônio, mas era apenas a fome. Esperou sob a marquise do prédio em frente à praça do DI, onde sempre aguardava seu traficante. O homem baixo e sorridente estava demorando mais do que o normal para chegar, ou talvez fosse apenas a angústia que tomava conta de seu ser. Finalmente chegou. A transação foi rápida, poucas palavras, troca de dinheiro, tudo muito fluido.

Quando o traficante partiu, Martins foi atrás dele e o perseguiu por algumas quadras, até que chegaram a um prédio feio e sujo, com uma luz avermelhada que iluminava uma escada que levava a uma única porta no seu final. O traficante entrou e fechou a porta. Torrado estava logo atrás. Ele vestia o manto da privacidade. O sangue em seu corpo operava de formas tão sobrenaturais que a sua presença simplesmente era ignorada.

Apesar do mofo nas paredes, nos degraus gastos e na lâmpada que pendia por um par de fios desencapados, a porta era nova, bem cuidada e tinha uma placa gravada em alto relevo "Congregação Ungidos pela Sombra do Sangue do Escolhido". Torrado esperou do lado de fora e quando o traficante abriu a porta, Martins entrou enquanto ele saia. O homem simplesmente ignorou a figura macabra do Nosferatu à sua frente e de certa forma até abriu passagem para o vampiro entrar. Tudo isso ocorreu de forma "natural", como se tudo se encaixasse na realidade.

Torrado viu uma mesa com um telefone, um notebook, alguns papeis organizados, uma cadeira confortável e um antigo equipamento de coleta de sangue. Atrás disso tudo havia uma geladeira e isso fez com que o resto todo logo fosse ignorado. O Nosferatu arrombou o cadeado e pegou como um ladrão novato, o que seus braços conseguiram abraçar de dentro do refrigerador. Saiu pela porta, desceu as escadas, caminhou alguns metros até sua moto e com ela fugiu do local do crime. Foi em direção ao refúgio coletivo de sua coterie. Era mais perto chegar lá do que ir pra casa.

Catarina foi convidada por Pierre, o primogênito do clã Toreador, a um evento reservado, onde estariam ele e Iran Borba. O envelope decorado, o papel com uma caligrafia que beirava uma obra de arte. O selo do clã Toreador de Brasília, desenhado com esmero e as palavras doces e cativantes, em nome do próprio primogênito deveriam ser lidas apenas uma vez e então para sempre destruídas, devido aos protocolos de segurança e paranoia. Evitar rastros, mesmo no lixo, era a norma. Ao terminar de queimar o papel, colocou as cinzas em uma bela caixa decorada, feita por uma artesã que havia encontrado em uma ocasião muito especial, e a guardou junto com seus tesouros mais íntimos.

Se arrumou, passou seu melhor perfume, sentia falta de certas comodidades de sua vida anterior, quando não era caçada. Havia empregados, carniçais, lacaios, serviçais dos mais variados tipos. Enquanto morou na casa de seu Senhor, nada nunca lhe faltou. Claro, até o dia em que a Inquisição, ou algum inimigo sem nome, destruiu seu criador, pai, amante, mestre. Enquanto penteava, sozinha em seu quarto, os próprios cabelos, lembrava de noites mais ostentosas.

Então começou a andar pelos largos corredores de seu refúgio coletivo, sob a casa noturna “Bloodlust”.

Pastor Israel e Eli Urt conversavam sobre as descobertas que fizeram a respeito da assombração afligia à coterie. Eram duas mentes diferentes, dois pontos de vista quase que diametralmente opostos em relação ao sobrenatural. As palavras de Israel vinham de sua devoção e fé, deturpadas pelos anos nos caminhos do Sabá, mas enraizadas em sua alma como verdades ditas pelo próprio Deus ou mesmo Caim. Urt era um cientista provavelmente mais cientista do que vampiro. Mas em algo concordavam e dividiam crença, o fantasma era real, fosse uma demonstração do poder do inimigo ou uma manifestação inconsciente de energias ainda não explicadas pela ciência.

Dividiram anotações, discutiram notas, chegaram à conclusão que uma amostra do sangue dos dois mais envolvidos nos eventos espectrais era necessária. 

Catarina entrou na sala, ainda pegou um pouco da conversa, ficou assustada quando ouviu o Lasombra e o Tremere confirmarem que a coisa que perturbava seu sanctum era um fantasma. A Toreador começou a ouvir vozes e ver vultos, mas tudo parecia ser apenas ilusão, algo criado pelo seu pavor da incorporeidade.

Torrado entrou na sala segurando sacos de sangue, passou pelos membros de sua coterie e foi em direção ao quarto onde havia um pequeno refrigerador. Jogou as bolsas lá dentro, de forma displicente. Os outros três o acompanharam, todos muito desconfiados. Urt abriu refrigerador, analisou as bolsas de sangue e foi categórico enquanto descartava vários dos sacos, no lixo. Aqueles estavam além da capacidade de suprir alguma alimentação. Eram sacos contaminados ou cujo conteúdo se deteriorou em o armazenamento apropriado enquanto Torrado o carregava pelas ruas de Taguatinga. O comportamento de Martins era estranho, mas parecia não ter relação direta com a aparição.

Urt e Pastor Israel buscaram convencer Catarina Oliveira e Torrado Martins a cederem um pouco de sangue para que fosse analisado por pessoas mais próximas das práticas do oculto e do sobrenatural. Apesar da reticência natural na prática, ambos acabaram vencidos pelos argumentos do Lasombra e do Tremere.

Cavalcante ainda pegou duas ou três frases enquanto arrumava a gravata. Ele sairia para se encontrar com um associado e começar o processo de resolução dos problemas do senador.

Chegou ao Setor Comercial Sul. O lugar tinha uma enorme placa escrito "Revitalização do SCS! Governo do Distrito Federal", mas era uma revitalização que jamais acontecia. Durante o dia havia pouco comércio, profissionais liberais, acadêmicos, compradores e consumidores, contudo a quantidade de sem tetos era enorme, a fome era lugar comum, e mesmo assim a política pública usual era da remoção forçada de famílias e mais famílias de moradores de rua. À noite a situação não era diferente, entretanto as pessoas eram outras, com outros tipos de produtos e ofertas mais ousadas. José Teixeira Cavalcante entrou no velho elevador do edifício Márcia, subiu até o décimo andar e entrou na Mesquita e Camargo Associados. Assim que colocou os pés no escritório, Gilmar Mesquita dispensou a secretária. Para Teixeira estar ali é porque a conversa era mais séria que as demandas corriqueiras. O assunto era sobre a menina do Senador. Precisavam comprar o silêncio da moça e o comprariam com mais dinheiro do que certamente os inimigos políticos do senador ofereceram a ela.

Catarina foi a uma mansão no SMPW. O lugar tinha seguranças, serventes e bastante do luxo que havia deixado para trás quando foi para Brasília. Não tinha o jeito de ser um refúgio, um lugar mais secreto, provavelmente era uma casa emprestada por algum amigo de Pierre ou Iran. Logo na porta Iran foi recebê-la e a saudou com gosto e regozijo. Caminharam amistosamente em direção ao primogênito. Era realmente a primeira vez que tinham uma conversa tão privativa. Iran fofocou sobre alguns outros vampiros, apontou o dedo para outros nomes, decidiu o destino e os status de alguns mais e falou bem da festa que Catarina organizou para o Príncipe Maximiliano.

Pierre estava fora da cidade no dia do baile de máscaras e ficou satisfeito ao saber que o Príncipe havia se agradado de algo que seu clã fez. A muitos anos o clã Toreador dominou a Capital Federal. Eles foram os criadores e promotores da ideia da criação de uma cidade no meio do nada, como uma obra de arte. Afonso Beloto de Assis já murmurava nos ouvidos de José Bonifácio que a capital deveria ser transferida do Rio de Janeiro para o interior. Afonso Beloto foi o primeiro Príncipe da nova capital e abdicou do posto para que sua Cria, Phelippe Mistral Ferrier, Senhor do próprio Pierre, pudesse galgar postos dentro da Camarilla.

Infelizmente Ferrier foi consumido por seus medos e inimigos e o Principado foi assumido pelo clã Tremere, na figura de Beliza Gregory. Contudo isso tudo foi antes da Segunda Inquisição e agora eram outros tempos, outras noites.

Pierre estava encantado com os dotes de beleza, feminilidade e simpatia vampírica de Catarina Oliveira. Suas intensões eram óbvias e não foram impedidas pela vampira desejosa de poder. Passaram a noite juntos, onde ela adquiriu um bom status temporário de querida pela Camarilla e pelo Clã Toreador.

Eli Urt foi ter com Margot, a favorita. Ele mostrou a ela o sangue de Catarina e de Torrado Martins. Margot elogiou a capacidade dos membros da Casa Tremere de serem eficientes em suas tarefas. O sangue era o que a líder da Casa Carna em Brasília precisava para entender melhor o que afligia à coterie de um dos membros de seu clã, mesmo sendo o membro de uma casa rival. Ela se aproveitaria da situação, isso era certo, e Urt estava disposto a pagar o preço. Fizeram um ritual. Aos olhos de Eli era algo pirotécnico, mas as palavras que ela poderia trazer seriam úteis e precisas. Margot avaliou as propriedades do sangue e os fragmentos de almas de Catarina e Torrado. Assertiva, disse que Catarina era uma vítima colateral do poltergeist e que o ser efêmero estava de alguma forma atrelado ao Nosferatu. 

Urt questionou sobre como poderia saber mais sobre aquele assunto fantasmagórico e Margot se dispôs a mostrar um caminho a ser trilhado pela coterie. Se despediram com a Favorita abençoando Urt com o nome da Venerada Beliza Gregory.

Eram muitos favores e custos devidos pelo Tremere e seus associados.



Personagens
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra] 

NPCs:
Maximiliano Jean Carlos - Ventrue, o Príncipe de Brasília;
Pierre Toussaint Gaudez - Toreador, primogênito;
Iran Borba - Toreador, harpia;
Afonso Beloto de Assis - Toreador, ex primogênito;
Phelippe Mistral Ferrier - Toreador, ex Príncipe;
Beliza Gregory - ex Príncipe;
Margot - Tremere, casa Carna;
Sebastião Cortez - traficante de sangue;
Gilmar Mesquita - advogado.


Sistema:
Vampiro: a máscara 5ª edição

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