Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 9 [Vampiro a máscara 5ª edição]
Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 9
(16/04/2023 domingo)
Os problemas se acumulavam. Não era a primeira crise que alguns deles enfrentavam, mas para Torrado e principalmente José Cavalcante era algo inédito. Urt e Catarina conheciam bem as regras, sabiam como deveriam se portar, entendiam que as consequências da quebra da Máscara poderia ser severa. Pastor Israel ainda se ambientava em sua nova realidade, buscava se estruturar naquela seita, ele era um sobrevivente e se para sobreviver ele precisasse seguir os caminhos estranhos da Camarilla, ele o faria. Torrado era Nosferatu, a dor e o sofrimento eram amantes que jamais o abandonavam, ele, talvez mais que os outros, entendia a palavra "castigo". José Teixeira Cavalcante era novo naquele jogo, fora apresentado a não mais que cinco anos, era Ventrue. Tudo o que aprendeu foi que seu sangue era forte, capaz, que o mundo deveria se curvar perante os Lordes, os Reis de Sangue Azul. Possivelmente ele ignorava que algo pudesse recair sobre ele, pois ele era Ventrue...
A Sentinela Escarlate discutiu, ponderou, organizou e alinhou o discurso. Se fossem interpelados antes de agirem para diluir o prejuízo, pensavam ter uma resposta plausível para os membros mais fortes, para os líderes. Não ficaram de braços cruzados, acreditaram que poderiam resolver tudo de maneira simples, criando alguns favores, pagando os preços certos, puxando as cordas de forma harmônica.
Alguns foram tentar sanar os problemas da Coterie por um caminho, enquanto outros apenas precisavam se alimentar.
Cavalcante tinha um plano eficaz, simples. Os mais velhos estavam preocupados demais, era apenas uma pequena reportagem na internet. Eles eram ultrapassados, não conseguiam entender as nuances da imaterialidade do mundo atual. Ele não, ele era jovem, bonito, sabia navegar na política e na próxima atualidade mutante. Teixeira se sentia amarrado pelas regras falaciosas da Camarila, principalmente de seus irmãos Ventrue. Não usar celulares, não ter acesso à internet, não usar tecnologia de ponta. Chegava a ser ridículo! Ele aceitava, sabia que ainda deveria subir alguns degraus para que sua voz tivesse o impacto que ele mesmo se dava. Por enquanto ele apenas seguiria esses ditames ultrapassados, contudo mostraria que sabia tomar decisões e a liderança. Foi ao Senado, falou com Valéria, sua prima e secretária do Senador. Pediu a ela um contato útil para eliminarem uma informação da rede, ela quase foi contra a vontade de José. O Senador havia dado uma ordem direta para que ele resolvesse o caso da menina o quanto antes. O cerco se apertava ao redor do experiente político e ele sabia que o Senador Vono, o eterno opositor, principalmente pelo caso da Caixa, estava no comando do Conselho de Ética e que a ponta solta de um filho, fora do casamento, com uma menor de idade, não seria deixada de lado. Quando Valéria falou isso para Cavalcante, ele quase explodiu de ódio, amaldiçoando o velho senadorzinho com todo seu ódio, mas manteve a compostura. Prometeu organizar as coisas antes que o recesso do Senador terminasse.
Conseguiu o contato de Indra Vânia, uma jornalista e influenciadora digital que poderia, tentar, abafar o caso da família acometida por uma doença misteriosa após um grupo estranho entrar em sua casa.
Sem perder tempo conversou com a jornalista. Marcaram de se encontrar no Calaf no Setor Bancário Sul e para lá se dirigiu. Ao chegar, viu a influenciadora, uma típica esquerdista, com suas peculiaridades temporais, com seus hábitos perto dos detestáveis, mas se ela resolveria seu problema, que fosse.
Seguiram para a antiga sede do Banco do Brasil e lá conversaram. Ela ouviu a demanda de José Cavalcante, o olhou mensurando-o, calculando quanto poderia retirar daquele terno tão alinhado. Cobrou uma pequena fortuna pelo trabalho, e ainda disse que só iniciaria o processo quando recebesse metade do montante, para que pagasse a outros influenciadores. Cavalcante não tinha dinheiro consigo. Tentou dominar a mulher, todavia estava preocupado demais com a quebra da máscara que o assombrava, o que o impediu de se concentrar corretamente. A influenciadora parecia possuir uma vontade de ferro. Não era comum ver alguém que conseguia resistir às artimanhas mentais do clã Ventrue. Talvez fosse interessante investigá-la posteriormente para entender melhor como ela conseguiu tal façanha. Entretanto, ainda havia a situação do dinheiro. Cavalcante deu a ela o relógio que recebera como presente do Príncipe, ao ser aceito como membro da Camarilla, no dia em que jurou fidelidade.
Eli Urt foi para o Laboratório de Hematologia e Células Tronco da UnB, o lugar onde passou anos de sua vida mortal. Conhecia os equipamentos, os procedimentos, os tubos de ensaio, erlenmeyers, kitassatos, pipetas, bicos de bunsen. Assim que entrou viu um antigo colega, Horácio Satoro Hamada. Foi reconhecido e recebeu a cortesia dos acadêmicos. Conversou com o Doutor Professor Hamada. Perguntou sobre as novidades, ouviu algumas coisas interessantes sobre antigos membros e novos alunos, principalmente sobre um jovem biomédico especialmente talentoso, Oscar Travassos, que desenvolveu um tratamento eficaz para Hemoglobsinúria paroxística noturna, algo que se pensava impossível. Isso chamou muito a atenção de Urt, talvez esse jovem pudesse ser uma chave para resolver seus próprios dilemas, talvez ele fosse o elemento para resolver a doença de sua família. Deixou a ideia de lado por um momento, havia problemas que atuais que obstruíam as antigas obrigações. Eli então chegou logo ao assunto que foi tratar com Dr. Hamada. Ele queria a entrega periódica de bolsas de sangue específicas, para estudos muito importantes e em troca ele daria algo raro, seu próprio sangue. Ao analisar a amostra colocada sobre a lâmina, Dr. Hamada precisou se segurar para não gritar. Aceitou dar o que Urt precisava.
Pastor Israel foi à sua congregação, precisava se encontrar com Deus, com a palavra, com Caim e, principalmente, precisava se alimentar. Quando chegou, viu que a rua estava calma demais, os dois bares próximos estavam fechados, as casas já com as luzes desligadas, sequer um carro estacionado ou um irmão ou idosa irmã qualquer em busca de proteção divina. Viu apenas uma mulher bem à porta da igreja. Era uma mulher de roupas sujas, cabelo com aspecto de que não era lavado a dias, na face havia a expressão humana da fome, a típica pessoa em situação de rua. O nojo tomou conta de Pastor Israel, contudo, mesmo naquelas condições deploráveis, poderia ser alimento tão bom quanto qualquer outro. Era uma benção dos céus. Tentou falar com a mulher, mas não houve resposta. E ao se aproximar a mulher simplesmente desapareceu. Hesitou. A última experiência com um ser desses não havia sido agradável. Buscou refúgio no templo.
Ao entrar na igreja, tudo ficou escuro. As sombras tomaram o lugar de forma sobrenatural e a porta se fechou com um baque surdo. Por um instante Israel pensou que havia recebido a visita de Santa Tereza do Sangue, e que ela falaria sobre a quebra da Máscara e como isso os colocava em risco, mas suas preocupações se tornaram ainda maiores. A visita era de Benedita Venegas, a maior aliada de sua Senhora, a Lasombra conhecida entre os antigos membros do Sabá como Benedita, a Apaziguadora; a Mãe Sombria; Venegas, a Bruxa Divina, a Assassina de Cain, entre outros pseudônimos menos louváveis.
Venegas não perdeu tempo e perguntou se Pastor Israel e os outros haviam encontrado o diário de Grosu enquanto revistaram a casa. "Ela estava vigiando? Ela sabia?". Israel foi categórico ao afirmar que não. Haviam encontrado papéis soltos, contudo não um diário. Benedita Venegas subiu o tom e disse que não eram as folhas esparramadas de lacaios que ela queria, que exigia o verdadeiro diário de Grosu, onde ele guardava seus... segredos. Mais uma vez Israel disse que não sabia do que se tratava. Benedita precisava de uma confirmação à seu modo. Dolorosa e impiedosamente ergueu Israel no ar com os tentáculos das sombras, ameaçou-o, arremessou-o contra paredes, mostrou poder. Perguntou novamente. Israel disse que não sabia do diário, que haviam entrado na chácara para eliminarem a aberração. Benedita jogou-o ao chão, se acalmou. Falou que se ele soubesse do diário e o entregasse, ela mesma faria com que Santino, o Executor Goiano, a cria de Miguel Corazón, o vampiro que os três traidores mataram para entrar na Camarilla, o perdoasse, pois Santino só pensava em vingança. Quando Benedita saiu e as sombras se dissiparam com ela, Pastor Israel pôde ver o porquê não havia ninguém na igreja. Seis corpos estavam pendurados no teto, crucificados, esfolados vivos. Sofreram por horas. Reconhecia ao menos três deles, Alberto, o dono do bar "Participação"; Antônia, que morava na casa ao lado da igreja e Cristiano, o filho de Antônia.
Israel correu para fora do templo, fechou a porta e procurou ajuda.
Torrado Martins roubou o banco de sangue do hospital regional de Taguatinga, uma ação tão fácil que se questionou por que passou tanto tempo comprando do atravessador.
Ao voltar para a Bloodlust Martins viu Pastor Israel. O semblante do Lasombra era assustador, como se o demônio que enfrentaram na noite anterior tivesse próximo, pronto para devorá-los a qualquer momento. Israel mandou chamar Luiz Pareto e quando ele chegou, pediu ajuda dos dois para resolverem uma coisa séria na igreja. O Pastor ficou nervoso ao tentar não explicar tanto, não deixar que seus medos se aflorassem, e mesmo assim conseguisse o apoio necessário, de Torrado e de Pareto.
Pareto era fiel à Coterie. Bebia regularmente do sangue de todos e isso fez que a leucemia desaparecesse de seu corpo. Porém ele servia a todos e o assunto era muito particular para poder se envolver. Questionou. A insistência de Pareto, seu questionamento, era de uma insolência atroz! No Sabá um humano sequer era visto como um animal, sequer então um lacaio, e aquele mortal o questionava em um momento de crise. Colocou Pareto em seu lugar, machucou o verme humano e, ao ver o sangue fluir, alimentou-se. Torrado Martins afastou o Lasombra de Pareto, algo estava muito errado. Pastor Israel foi mais imperativo. Precisavam partir imediatamente. Mesmo enfraquecido, ferido e humilhado, Pareto foi executar a tarefa.
Os três chegaram à igreja. Israel não conseguiu entrar, talvez fosse algo que adquiriu ao assumir sua nova vida ou algo diferente. O certo é que sua mente estava enfraquecida pelo encontro com o monstro, com Benedita e com o medo de seu passado Sabá lhe atormentar pelo resto de suas noites.
Após vomitar duas ou três vezes, Luiz Pareto removeu os corpos do teto.
O fiel carniçal levou os corpos para um lugar desconhecido, enquanto Israel e Torrado lavaram a igreja pelo resto da noite.
Quando o sol se aproximou, eles desceram para o porão onde poderiam descansar e fugir do dia. Entretanto, mesmo Pastor Israel notou que a escuridão de seu refúgio era mais densa do que costumava ser. Seria Benedita? Seria outro Lasombra? Seria algo relacionado ao fantasma da mulher imunda? Não havia tempo para conjecturas, o sol nasceu e o sono dos mortos pesava em suas cabeças. Dormiram.
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra]
Benedita Venegas - Lasombra;
Santino - Lasombra;
Indra Vânia - influenciadora digital;
Dr. Horácio Satoro Hamada - professor de hematopatias raras na UnB;
Oscar Travassos - biomédico proeminente;
Alberto Palhares - dono de bar;
Antônia Maria Silva - manicure e dona de casa;
Cristiano Silva Jr - traficante e estudante;
Luiz Pareto - advogado, carniçal, limpador.
Vampiro: a máscara 5ª edição

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