Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 8 [Vampiro a máscara 5ª edição]
Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 8
(09/04/2023 domingo)
Uma preocupação singular tomou a mente dos membros da coterie Sentinela Escarlate. A casa onde estavam começou a se tornar incômoda, de uma forma que nenhum deles saberia explicar. Talvez fosse o ranger de algumas madeiras, ou quem sabe o estalar quase hipnótico da contração noturna do imóvel. Um medo cresceu em seus pensamentos, o medo de jamais conseguirem cruzar os limites de contenção daquele território. Aquela reflexão tornava o tempo, que corria incansável, agoniante e resolveram voltar para o refúgio quanto antes. Postergariam a missão, se reorganizariam, mas não ficariam ali sequer mais um minuto. Partiram.
Ainda enquanto atravessavam o campo árido, Torrando Martins observou marcas recentes de passos e arrastos que encobriam suas próprias pegadas, pela profundidade daquelas pisadas, era impossível que tivesse passado algo tão grande por ali sem que eles tivessem escutado algo. Apertaram o passo e entraram na mata ciliar, deixaram para trás um pouco de cuidado e resolveram apenas que queriam sair dali. Seguiram pela trilha estreita com Martins à frente, seguido de perto por Cavalcante, Israel, Urt e por fim, Catarina. Pouco mais de duzentos metros foram vencidos quando Eli Urt deu por falta de Catarina, que o acompanhava a não mais de 5 ou seis passos.
Eli avisou aos outros e quando as lanternas buscaram traços da Toreador, viram apenas os pés da vampira desaparecendo mato adentro. Pastor Israel enxergou através da escuridão com seus olhos do abismo e iniciou um processo de desespero assim que deu conta de um vulto gigantesco entre as árvores. Os demais membros da coterie então ouviram o estampido e viram o clarão de tiros. Era a arma de Catarina. Pensaram até em fazer algo, mas antes que pudessem de fato agir, o corpo da vampira era arremessado contra eles, acertando bruscamente uma árvore. O barulho dos ossos se esfacelando era terrível. Correram para ver Catarina e um novo corpo quase os atingiu, pedaços de um homem de meia-idade, e então outro objeto, os restos de um cão.
Catarina Oliveira fez a sagrada e profana Vitae que permitia a seu corpo se mover, fluir através dos ferimentos os injetou com sua vontade, e assim obrigou a sua estrutura física a voltar ao estado íntegro e belo de sua existência vampírica. Entretanto, o momento de distração quase os fez esquecer da imensa forma monstruosa que se aproximava rápida e impossivelmente silenciosa.
Quando as lanternas mostraram a real aparência da imoralidade de carne que avançava, um antigo instinto animal, um resquício de suas vidas humanas, os paralisou. O medo tornou-se ameaça tão tangível quanto o próprio monstro à frente. A criatura impossível de obscena feitura, costurada com corpos de pessoas e de animais, unidos pela blasfêmia de um cirurgião demoníaco, atropelou a Sentinela Escarlate. Mandíbulas perversas mastigavam. O tecido muscular sedia espaço a ossos pontiagudos que entravam fundo na pele dos vampiros e se fragmentavam em pedaços odiosos de dor e desespero. A massa hedionda daquela aberração estava faminta e seu único desejo era se alimentar da carne dos cainitas.
A deformidade esta gigantesca, forte, apavorante, monstruosa, todavia também monstros eram os vampiros. Haviam, sim, hesitado e quase foram destruídos por esse erro. Se deixaram levar pelo pouco de humanidade que ainda carregavam em suas almas e permitiram que o medo os acovardasse, e então consentiram que a besta interior agisse, que a maldição que os tornava predadores dos humanos e expulsos da divina luz do Sol, os fortalecesse. Finalmente lutaram.
A desigualdade de massa e volume entre eles e a coisa era imensa, mas os vampiros eram em maior número, estavam armados, possuíam capacidades sobrenaturais, determinação e ódio. Cavalcante e Urt conseguiram se afastar, apesar dos enormes ferimentos que seus corpos carregavam. Buscaram um posicionamento mais estratégico e que evitasse que a abominação pegasse a todos de uma vez. Oliveira e Martins tomaram uma rota diferente. A Toreador por mais que tentasse agir, era manipulada como uma boneca de pano, nas garras da coisa, já o Nosferatu possuía enorme determinação em dar cabo à criatura e permaneceu próximo da fera, a raiva que exalava dos olhos de Torrado era visceral. Catarina começou a ser devorada pelo monstro. Torrado tentou impedir que ela entrasse por completo, mas acabou com os braços em uma das bocas da aberração.
Pastor Israel procurava formas de ajudar Martins e Catarina. Urt e José Teixeira observaram que os pedaços de corpos arremessados contra eles começavam a se mover em direção à monstruosidade. Desta vez não hesitaram, usaram tudo o que tinham contra aqueles pedaços profanos de corpos.
A profanidade então começou a se afastar dos três, carregando dentro de si a Toreador e arrastando Martins pelos braços. O Nosferatu obrigou a Vitae a lhe dar força e puxou o corpo de Catarina de dentro da bocarra, dando em troca apenas uma de suas mãos.
A coisa se foi, provavelmente se recompor na casa. A Sentinela Escarlate avaliou a si e sem questionarem, foram em direção à saída daquele lugar amaldiçoado. No momento exato em que Pastor Israel atravessou os limites dos símbolos de proteção, ele pode jurar que havia visto uma pessoa à sua frente, mas guardou isso consigo.
Correram, e como se o destino lhes pregasse mais uma peça, viram que seu carro estava com os quatro pneus rasgados. Israel observou atentamente as marcas na borracha e ainda recuperou algo para análise posterior.
Infelizmente estavam longe de casa, com a noite se aproximando de seu fim. Com uma breve e acalorada discussão argumentaram sobre o que fazer, se iriam para o refúgio ofertado por Mazira ou se agiriam de outra forma. A decisão se fez quando Urt andou em direção a uma chácara, sendo seguidos pelos outros.
Eram aproximadamente três horas da manhã quando educadamente a coterie bateu à porta da casa. Ninguém ousou responder ao chamado. Martins forçou a fechadura e a porta cedeu. Eli entrou e com uma voz calma disse que seu carro quebrou ali perto. Repetiu a frase duas ou três vezes. Então uma mulher veio, assustada, ver quem havia invadido sua casa Não há como explicar a reação de algumas pessoas quando o inevitável se aproxima. O Tremere andou de forma inexorável em direção à mulher e, com um tom de voz calmo e complacente, dizia como um mantra herético - "nosso carro quebrou logo ali" - e mordeu o pescoço de sua vítima. O resto da família tornou-se o banquete para os dentes famintos da coterie.
Ao fim da alimentação, puseram todos em suas camas. Nenhuma das vítimas havia sido morta, não ao menos por ação direta. Assim era a Camarilla.
Levaram o carro da família e foram para o refúgio. O destino mais uma vez mostrou sua risada irônica. A blitz da polícia não pode ser evitada. Quando o policial perguntou se eles haviam bebido, Eli Urt gargalhou por dentro, Cavalcante, que dirigia, apenas sorriu para o mortal e disse estarem todos bem. Foram liberados. Por omissão, por descuido, ou por pavor, o agente da lei pareceu não notar as roupas rasgadas e sujas de sangue dos ocupantes daquele carro.
Chegaram a seu lugar seguro, mandaram Pareto dar um jeito no carro roubado. Dormiram um dia de dores, sonhos detestáveis e cura.
Na noite seguinte se recompuseram. A fome ainda os afetava, mas seus ferimentos haviam partido. Pareto não demorou a aparecer,, ele parecia afoito. Mostrou uma reportagem de uma família que havia sido infectada por alguma doença estranha, a qual colocou todos eles próximos da morte. Uma imagem da coterie, pega pelo sistema de segurança, estava na reportagem e era quase nítida. As filmagens do que aconteceu dentro da casa não estavam disponíveis no site.
Certamente em breve receberiam notícias, ou pior, uma visita.
Mesmo com a preocupação da quebra da máscara, Pastor Israel devia ainda revelar seus achados. Ele mostrou um grande fragmento de garra, que encontrou junto aos pneus rasgados de seu carro. Ele já havia ouvido falar sobre o tipo de criatura à qual aquela garra pertencia, era um ser que estava extinto, ou deveria estar extinto. Quando revelou seu achado aos outros, Urt ainda foi categórico - "Eles devem estar tão extintos como nós também fomos". Um novo medo formou-se num canto obscuro das mentes vampíricas, o medo dos lobisomens.
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra]
Mazira - Ravnos;
Luiz Pareto - carniçal.
Vampiro: a máscara 5ª edição

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