Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 10 [Vampiro a máscara 5ª edição]


 Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 10

(07/05/2023 domingo) 

Uma nova noite se iniciou e os membros da coterie Sentinela Escarlate se reuniram ao redor da bela mesa em seu refúgio comunal. Havia uma certa apreensão no ar, uma ansiedade, como se uma barreira tênue de expectativas estivesse próxima de ser quebrada e, então, foi.

Era a visita que eles esperavam. Vilmar havia chegado com um envelope com o selo correto intacto. Ele se desculpou por não ter avisado com antecedência que apareceria e até declinou de tomar sua dose habitual de Nirvana. Entregou o envelope a Cavalcante, que o leu prontamente.

O conteúdo da missiva não continha informações detalhadas sobre alvos, descrições de possíveis violações contra a máscara, nem nomes de vampiros que pudessem ser prejudiciais à Camarilla. Havia uma mensagem curta, convidando os membros da Sentinela Escarlate a comparecerem ao mirante da Torre de TV para conversarem o mais breve possível com Reinhardt Birkheuer von der Näcktschwert, o Senescal do Domínio de Brasília.

As letras contidas no papel eram de uma caligrafia diferente das que comumente recebiam, além de haver um universo inteiro de subtextos em tão poucas palavras.

Perguntaram a Vilmar se ele sabia de alguma coisa, se podia dar alguma informação. O carniçal foi elegante com as palavras, como sempre, e buscou deixar claro que, apesar de saber de algumas coisas, não poderia dizer o que seu coração ocultava. Contudo, José Teixeira foi enfático e, com a força de sua vontade, fez Vilmar falar. Vilmar disse que pouco sabia, o que era verdade, mas que alguns membros do alto escalão estavam insatisfeitos com a Sentinela Escarlate, enquanto outros buscavam entender o problema e amenizá-lo. Para a surpresa de Catarina, um dos nomes citados como descontentes era o de Iram Borba, a harpia e seu principal aliado na teia dos Toreadores. Outro nome era um nome de respeito e temor, o de Alice Pink. Se Alice Pink estava desgostosa com eles, era um perigo a ser levado em conta. Vilmar partiu, acompanhado, até a porta, pela majestosa e sempre elegante Catarina.

Apesar de a carta informar que o Senescal gostaria de falar com eles a qualquer momento, "o mais breve possível" provavelmente deveria ser interpretado como "imediatamente" e não "quando lhes convier".

Sabiam que Pastor Israel não estaria com eles naquela noite. Aproveitaram um momento de autonomia e se alimentaram antes de irem para o encontro. Era melhor estarem com as faces coradas e a fome controlada, foi o que concluíram.

Foram para a Torre de Televisão.

A noite ainda estava quente e as pessoas passeavam na feira noturna ao redor da Torre. A feira e a fonte luminosa atraíam casais apaixonados, jovens bêbados, músicos pobres, empresários acomodados nos setores hoteleiros norte e sul, prostitutas e turistas ocasionais. Mesmo com os perigos inerentes àquele mundo das trevas, onde monstros desmortos caminhavam dissimuladamente entre a população, ainda havia um certo ar de alegria, algo sempre necessário para fortalecer o medo e o sentimento de abandono.

Eli Urt, José Teixeira Cavalcante, Catarina Oliveira e Vinícius "Torrado" Martins se aproximaram das portas dos elevadores. Havia dois casais e uma família com três filhos esperando a vez, mas assim que viram a mulher vestida como uma supermodelo acompanhada de um maltrapilho e dois homens charmosos, preferiram se afastar, fingindo desinteresse imediato e buscaram outra forma de se divertirem além da bela vista oferecida pela monumental torre. Uma das crianças ainda tentou reclamar com os pais, mas foi silenciada rapidamente pela irmã mais velha, que disse que durante o dia, a vista seria bem mais bonita.

O senhor Edvaldo, o ascensorista, idoso e sorridente, perguntou para onde iriam e, quando soube o destino, foi categórico ao dizer que o elevador poderia levá-los até ao restaurante e que o mirante estava fechado ao público. Eli conseguia ler na face do velho que havia um condicionamento sobrenatural rondando a mente do homem. Urt forçou sua própria vontade, e o ascensorista apertou o botão do mirante e acionou a chave especial. Pena que o salário da aposentadoria era tão pouco e que ele precisava ainda trabalhar nas noites. O idoso sorria forçadamente e olhava em frente. A viagem de 75 metros até o destino final do elevador parecia durar horas para Edvaldo, que havia chegado ao Distrito Federal ainda na construção, escapado da morte inúmeras vezes, matado um homem num prostíbulo na Candangolândia por causa de um maço de cigarros e se sentia acuado pela idade e pela fragilidade em que se encontrava, por estar próximo daquelas pessoas que pareciam tão comuns e ameaçadoras. Os olhos daquele que lhe deu a ordem de irem para o mirante jamais seriam esquecidos e o atormentariam até os últimos momentos de sua vida.

Após uma infinidade de tempo para Edvaldo, mas apenas alguns minutos para os vampiros, a porta se abriu. O ascensorista ainda falou para aproveitarem a vista, muito mais por condicionamento da profissão do que por educação, e quando a mulher olhou para ele e sorriu, ele se arrependeu de ter envelhecido. A porta se fechou.

O Senescal olhava para a cidade abaixo. Ele via as luzes que iluminavam a Esplanada dos Ministérios, as asas sul e norte, a saída sul distante, os lagos sul e norte tão próximos, até a torre digital.

O Domínio era amplo e organizado. Os setores traziam ordem à sua mente. Se dependesse apenas dele, haveria um vampiro por quadra, um vampiro por setor. Ninguém sairia de sua área bem definida, bem arquitetada e bem demarcada. Infelizmente nenhum dos Príncipes entendia a perfeição de sua ideia e ele também sabia que se fosse Príncipe iria discutir muito consigo mesmo sobre esse projeto ousado e, cainitamente, impossível. eram 16 quadras de cada Centena 100, 300, 500, 700 e 900 acima do eixo e 200, 400, 600 e 800 abaixo do eixo para a asa sul, e o mesmo número para a asa norte. Além dos setores hospitalares, bancários, hoteleiros, autarquias para um lado e para o outro. Ele precisaria de ampliar a quantidade de cainitas e isso poderia gerar um certo problema em relação à Máscara. Mas os números e as possibilidades e a organização permaneciam em sua mente. Até que ouviu a sineta do elevador e se virou para a porta, com seu rosto sem sorriso.

Ele viu quatro dos membros da coterie Sentinela Escarlate saírem do elevador. O número não batia com o que ele esperava. Faltava um. Entretanto sobrava outro. Além da percepção neófitos, que acreditavam serem tão importantes, havia um outro ser, oculto nas sombras. Reinhardt Birkheuer von der Näcktschwert, o Senescal, trazido à noite através do sangue do clã Malkaviano, reconhecia aquela ideia que fingia não estar ali.

Sem sorrir ele deu boa noite aos quatro e emendou um boa noite a Lodo, o Xerife, que buscava não se fazer notar. A Sentinela Escarlate sentiu-se atordoada ao saber que Lodo estava ao lado deles no elevador ou quem sabe desde quando. Essas nuances eram óbvias demais para Reinhardt e sequer valiam comentários. Os números não permitiam que vampiros mais novos tivessem as mesmas capacidades de vampiros tão experientes na noite, como ele e Lodo. Eles não notarem o Nosferatu não era demérito, era simples fato.

O Malkaviano havia visto aquilo tudo em seus devaneios e inspirações, ao menos até um momento próximo, contudo um elemento estava fora de sua visão e ele questionou. Com a mão espalmada à sua frente ele contou de um a quatro, apontando firmemente para cada um dos dedos e ao final, quando iria apontar para o polegar, deu de ombros. Queria saber onde estava o Lasombra. Recebeu a resposta de que o Pastor Israel estava ocupado cuidando dos problemas relacionados, provavelmente, ao chamado que receberam para irem à Torre.

Reinhardt aceitou a resposta e então emendou sobre o que eles poderiam dizer sobre os assuntos que o obrigou a convocá-los.

Cavalcante deu a entender que diria algo, quando Catarina começou a falar. José Cavalcante era Ventrue, Catariana era Toreador. Os Toreador inventaram a cidade, Afonso Beloto foi o primeiro Principe e passou o poder para sua cria, Ferrier, que foi embora, então Beloto deixou que Beliza Gregory, uma Tremere, assumisse o Principado. Assim o Senescal impediu Catarina de falar e ainda removeu seu direito de caçada nas terras da Vehme. Todos ficarem impactados.

Cavalcante então começou a explicar e juntar dois assuntos em um só. Insinuou que falharam em destruir uma criatura estranha porque lobisomens atrapalharam e assim houve uma quebra de máscara porque não tiveram informação suficiente... Não permitiu que continuassem assim. Ele sabia que era mentira e que misturavam as coisas, ele havia visto, ele teve a visão. Foi categórico, talvez até demais, perdeu um pouco de sua compostura, mas ver assuntos desconexos misturados em uma suposta explicação era muito amador. Eles eram uma coterie escolhida para executarem uma tarefa importante para a Camarilla e não podiam ser amadores.

Eli Urt tentou explicar mas errou nos mesmos argumentos. Reinhardt foi novamente incisivo em suas palavras. Ele não permitiria que um membro de um clã menor falasse na frente de um membro de um clã maior. Os Tremere não cresceriam em poder novamente, se dependesse dele, e sim, dependia.

Ouviu finalmente a explicação que queria. A coterie não executou a missão porque faltou-lhes informações suficientes para executarem. Lodo falhou em dar essa informação aos seus comandados, mesmo eles não sabendo que eram comandados de Lodo. Lodo falhou. Entretanto ainda precisariam ser disciplinados. Eles eram responsáveis por manter a Máscara e a quebraram. Falhar numa missão já era ruim, mas não o fim do mundo. Quebrar a Máscara quando se é o braço do Principado em manter a Máscara, era inaceitável. Removeu suas prerrogativas de Vehme temporariamente. Lodo interviu e permitiu que permanecessem no refúgio coletivo. Reinhardt não questionou, mas guardou a informação para uso posterior. Lodo era muito ligado e protegia demais os neófitos.

Então passaram para o outro assunto, os lobisomens que eles disseram que existiam. Mostraram uma garra ornada em um cordão de ouro. Ao tocar o objeto teve uma visão. Viu os olhos das bestas se aproximando e viu o sangue na noite. Deixou que o objeto permanecesse com os membros da coterie.

Antes de partir, pediu desculpas a Catarina, ela era Toreador, Toreadores criaram Brasília, e Afonso Beloto de Assis foi justo em seu tempo. Restituiu o direito de Catarina de caçar. Ela parecia faminta. A fome pode levar à quebra da Máscara.

Despediu-se de todos e desceu.

Lodo ficou com os membros da coterie. Sabia estar cheio de problemas com as palavras deles, mas também sabia o porquê eles eram Vehme. Ele teve voz. Ele os construiu, a contragosto de alguns.

Com as palavras diretas características do Xerife, a Sentinela Escarlate ouviu que o pecado deles havia sido quebrar a Máscara e ainda perguntou como estava o envolvimento do Lasombra com eles. Maldito Lasombra. De todos era o único que não queria envolvido com uma "polícia" da Máscara. O que esses sombrios traiçoeiros do Sabá sabiam sobre a Máscara? NADA! Mas não podia ir contra as ordens de Maximiliano e Reinhardt, não abertamente.

Questionou se não havia sido o Lasombra a coloca-los em uma situação tão próxima da morte final. Para sua infelicidade, ouviu de todos que não. E ainda foi obrigado a escutar que o Lasombra era útil. Apesar de uma certa observação estranha dita por Urt. Teve que interceder uma vez mais. Se os Lasombra eram Camarilla, e eram úteis, seriam tratados como Camarilla dali em diante e para todo o sempre... Até que não fizessem mais parte da Camarilla como um todo. 

Havia sido uma péssima noite, mas ainda existia chance para os neófitos. Ao menos soube que buscaram abafar a quebra da Máscara e que Mazira estava vivo. Isso era bom. Eles fizeram um bom trabalho. Era hora de fazer um pouco de política.


Os membros da Sentinela Escarlate voltaram para o refúgio e passaram algumas noites calmas, apenas se alimentando indolentemente. 



Personagens
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra] 

NPCs:
Reinhardt Birkheuer von der Näcktschwert - Malkaviano - Senescal;
Lodo - Nosferatu - Xerife;
Maximiliano Jean Carlo - Ventrue - Príncipe;
Vilmar - carniçal;
Edvaldo - ascensorista.

Sistema:
Vampiro: a máscara 5ª edição

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