Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 12 [Vampiro a máscara 5ª edição]
Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 12
(21/05/2023 domingo)
Havia uma certa paranoia no ar dentro da coterie Sentinela Escarlate. O pastor observava cada sombra com mais atenção, Cavalcante rumiava uma certa mágoa de si mesmo pelo ocorrido com a menina, e Catarina observava o comportamento de todos em busca de indícios de desvio de conduta. Era como uma caça às bruxas velada, talvez buscando avançar na hierarquia pisando nas cabeças dos outros membros da coterie.
As reuniões que costumavam acontecer no início das noites agora estavam mais frias e secas, repletas de pausas e olhares. Isso talvez refletisse o próprio clima da cidade, que começava a perder umidade e transformar as noites do cerrado em momentos gelados.
O sentimento de paranoia se mostrou acertado quando Luiz Pareto, o carniçal e faz-tudo da Bloodlust, se juntou a eles e jurou fidelidade, demonstrando lealdade, mesmo que apenas tivessem permissão para ficar no refúgio e não fossem mais parte oficial da Vehme. Como Pareto soube disso? Por que informaram ao carniçal sobre a situação dos membros? Certamente, era uma forma sutil de humilhação quase pública. O Senescal Reinhardt havia prometido que os pecados da quebra da máscara não chegariam aos ouvidos do Príncipe, mas a Sentinela Escarlate ingenuamente acreditou que a suspensão temporária de seu status dentro da sociedade vampírica também não fosse pública. Enfim, o carniçal, mesmo fiel e sempre eficiente, sabia. José Teixeira Cavalcante então questionou Pareto sobre como ele havia descoberto, e algo que não gostariam aconteceu: Pareto trouxe palavras externas na forma de uma obrigação de se encontrarem com um emissário do Príncipe e logo esqueceu o teor do que disse. Cavalcante reconheceu aquele condicionamento, sabia que Pareto havia sido dominado por alguém que conhecia as Disciplinas dos Ventrue. Não adiantava tentar extrair informações, o gatilho havia sido acionado e restava apenas decidir quando e com quem ir. A coterie decidiu ir ao encontro do emissário naquela mesma noite.
Durante o caminho do refúgio em Taguatinga Norte até o Teatro Nacional Cláudio Santoro, no centro do Plano Piloto, discutiram e especularam sobre o que seria dito, como se defender de possíveis julgamentos e condenações, acusando uns aos outros. A paranoia crescia. O silêncio dominou e chegaram ao Teatro Nacional.
Os subterrâneos daquele lugar já foram um Elísio, com festas, reuniões, conselhos, intrigas, ganância, apresentações particulares e todo tipo de evento da Camarilla. Dizem que Afonso Beloto de Assis sussurrou suas exigências para a construção do Teatro a Oscar Niemeyer, que, fascinado pelas ideias, pensamentos e pela figura do Toreador, construiu uma pirâmide para um faraó no centro da nova capital. Catarina guiou Cavalcante e Israel pelos meandros e salas ocultas daquela catedral da arte, assim como Iram a havia guiado quando chegaram à cidade. Eram visíveis as marcas de luta nos lugares onde os mortais não deveriam ir. A porta de entrada do grande salão, com o brasão do Domínio de Brasília, estava manchada de perfurações de bala. Dentro do salão, as flâmulas que representavam os sete clãs da Camarilla estavam rasgadas e irreconhecíveis, as paredes perfuradas, sujas e infiltradas. O trono, que já foi ocupado pelos Príncipes da cidade, estava danificado. Todas as marcas remetiam ao ataque dos mortais aos Membros, aos momentos de surpresa quando a Segunda Inquisição mostrou-se acima de qualquer manipulação ou influência dos vampiros. Muitos morreram.
Os três membros presentes naquele momento da Sentinela Escarlate observaram a história do lugar. E então perceberam que havia outro ser ali. Ele sempre esteve presente, mesmo quando entraram, mas parecia que não haviam dado a devida atenção, o que era impossível, pois estava bem no centro do salão.
Yussef Ahmad Al-Sabbah possuía a Disciplina de se ocultar, mesmo diante de todos. Ahmad fez uma saudação polida para os recém-chegados e apresentou-se como membro do clã Banu Haqim. Seus olhos demonstravam força, seus movimentos eram pura harmonia e suas palavras carregavam etiqueta e um certo tom subserviente. Ele estava ali a mando do Príncipe Maximiliano e, após as apresentações devidas e os elogios à unidade constituída pela coterie mesmo em momentos difíceis, presenteou Cavalcante com uma cabeça decepada. Disse que o Príncipe o havia enviado para resolver aquele problema. Com o espanto de todos, José Teixeira viu que a cabeça pertencia a Mesquita, um de seus homens de confiança. Sem tempo para perguntas, Ahmad revelou que Mesquita havia traído Cavalcante e contado a um agente de segurança que Teixeira era um vampiro. Por infelicidade do mortal, o agente era um fiel aliado da Camarilla e impediu que a Segunda Inquisição soubesse do fato.
Al-Sabbah se despediu de forma polida.
As surpresas para os não-mortos pareciam não ter fim.
Pastor Israel estava em dívida com Pareto. Não era uma dívida real ou que sequer imaginaria executar em outros tempos, mas parecia que era o correto presentear seus aliados, servos e seguidores com mimos. Parecia ser algo que um vampiro Camarilla deveria fazer.
Israel evitava ao máximo seu refúgio na igreja, mas não poderia deixar o lugar abandonado por completo. Juntar aquelas almas, seus cordeiros, havia sido árduo e não seria seu medo de Benedita Venegas que o faria fugir, pelo menos não naquele momento.
Ele voltou a pregar suas palavras de salvação e a liderar seu rebanho. A Congregação Ungidos pela Sombra do Sangue do Escolhido não pereceria.
Após várias noites tentando, Catarina finalmente havia conseguido uma audiência com Pierre Toussaint Gaudez, o primogênito do clã Toreador. Ela, com permissão de opção, decidiu que se encontrariam em um dos melhores clubes de jazz de Brasília, evitando que Pierre saísse de sua área de conforto. Cobrou um ou dois favores, subornou algumas pessoas e lá estavam eles.
Tudo parecia perfeito, no entanto, um detalhe passou despercebido. Logo no início da conversa, o primogênito deixou claro que não estava ali pela música, pois jamais havia gostado de jazz. Catarina não sabia onde enfiar a cara, mas Pierre logo foi conciliador e elegante. Ele se colocou acima de seus preconceitos e desagrados em relação à péssima escolha do lugar, e disse que a companhia de Catarina seria suficiente para superar qualquer descontentamento, tornando a experiência agradável.
Por algumas horas, conversaram sobre amenidades e participaram dos jogos sociais típicos de seu clã, até que Catarina expôs seus pedidos. Ela sentia-se excluída das atividades dos Toreadores e desejava que seu nome fosse carinhosamente incluído nas demandas do clã. Queria ser mais ativa e participativa. Pierre ouviu tudo atentamente, pois preferia ouvir as palavras da bela mulher ao seu lado do que os pitorescos acordes dos músicos no palco. Ele respondeu com elegância e prometeu que ela estaria mais envolvida com o clã.
Gaudez aproveitou e perguntou sobre suas relações com os outros membros da coterie. Ele foi categórico ao dizer que não a via capaz de desempenhar um papel em uma Vehme, e que foi Iram quem insistiu em avaliar seu nome. Para Pierre, esse novo mecanismo de "polícia" da máscara era importante demais, especialmente após a virada do milênio e a queda de Beliza Gregory.
Ele escutou atentamente quando ela falou sobre o Lasombra, ao qual ele mesmo se referiu erroneamente como Sabá, mas logo se corrigiu.
Ouviu quando ela mencionou o Ventrue e insinuou que Cavalcante era jovem demais para assumir qualquer posição ou status na Camarilla, mas Maximiliano desejava que sua influência se estendesse por todos os lugares.
Ouviu o desprezo dela por Torrado e, para surpresa de Catarina, ele foi amistoso ao se referir aos "Ratos" e afirmou que Lodo sempre foi um excelente aliado.
E então, Pierre pareceu esquecer do mundo ao ouvir Catarina falar sobre Eli Urt, o Tremere. Esse assunto era de extrema importância para ele. Pierre questionou o que ela sabia sobre Urt, se ele mencionava algo sobre Beliza, se havia a menor chance de Eli saber onde ficava o refúgio da antiga Príncipe. Certamente, haveria tesouros inestimáveis e segredos no refúgio de Beliza, especialmente se sua morte tivesse sido causada, como os rumores diziam, pelas mãos de Abdias Torquato Valente, o antigo primogênito do clã Brujah e maior aliado de Afonso.
Pierre informou a Catarina que um Arconte estava na cidade e estava interessado em Cavalcante.
Por fim, agradeceu a Catarina pela noite e pediu que ela convidasse o baixista e a baterista da banda para uma conversa privada após o show. Ambos precisavam se alimentar.
Em uma das noites, a coterie recebeu a visita de um novo vampiro em seu território. Era um homem com uma aparência quase cadavérica, mas educado. Era perceptível que ele falava com seres incorpóreos, que pareciam obedecê-lo quando ele dava ordens. Isso despertou as memórias e os medos da coterie, mas o vampiro parecia estar lá mais para pedir ajuda do que para causar conflito.
Ele se apresentou como Bruno Giovanni e informou que seu domínio e território de caça ficavam próximos, em Taguatinga Sul. Contou que conhecia a fama da Sentinela Escarlate e sabia de seu status como Vehme. Explicou que, infelizmente, um vampiro havia invadido seu território e se alimentado, o que por si só já seria uma afronta, mas durante a caçada houve quebras da máscara próximas à Universidade Católica.
Giovanni conhecia a vampira em questão, ela era uma antiga aliada desde seus tempos iniciais na Camarilla, quando foi aceito. No entanto, Ingrid havia se perdido na loucura e agora estava distante do ser humano racional que um dia fora.
Catarina afirmou que levaria a demanda aos membros mais graduados para que eles decidissem. Bruno achou estranho, pois se eles eram Vehme, deveriam pelo menos investigar a quebra da máscara, mas os tempos eram diferentes e ele apenas aceitou.
Após a partida de Bruno Giovanni, o Pastor questionou Catarina sobre a necessidade de informar aos superiores, como se eles não fossem capazes. Cavalcante acrescentou que deveriam fazer algo sem que os superiores soubessem, para recuperarem seus postos e status. Isso gerou uma discussão acalorada. A voz de Catarina se tornou mais alta. Ela defendeu que levariam a questão aos superiores e deixariam que eles decidissem.
Já não bastasse ter a cabeça de seu antigo homem de confiança entregue a ele por um assassino a mando do Príncipe, agora havia o chamado de Flora Caroline, a primogênita do clã Ventrue. Talvez o que esses vampiros mais antigos não entendessem era que ele, José Teixeira Cavalcante, era um prodígio. Sempre ouvira de todos o quão genial era, o quão jovem era para assumir tantas responsabilidades, especialmente entre os velhos e decadentes vampiros do século passado. Ele era especial e sabia disso.
Catarina e Israel insistiam que ele deveria ser mais humilde e que a liderança era conquistada pelo mérito, não pela imposição, mas eles não entendiam o que significava ser Ventrue. Ele representava uma nova era para os senhores de Brasília.
E agora mais um chamado.
A sala era organizada, prática e luxuosa, como deveria ser, apesar de estar fora de moda aos olhos de Cavalcante. Uma figura imponente e formidável estava ao lado da primogênita. Flora cumprimentou José Teixeira com os rituais característicos dos políticos e apresentou-lhe uma mulher bem vestida, com porte majestoso e sotaque típico dos países lusófonos da África, mais especificamente de Angola.
Nyala Kintu, do clã Ventrue, Arconte da Justicar Lucinde, era o nome da vampira. Ela avaliou Cavalcante com os olhos, observou sua postura, questionou Flora e então aceitou o indivíduo diante dela. Ele poderia servi-la como guia na cidade, assim como seus subordinados na coterie, se ele achasse apropriado.
José manteve sua pose. O ódio interno o consumia. Ele não deveria ser tratado com tanto desrespeito, afinal, ele era um prodígio. No entanto, seu Senhor o ensinara bem e sempre enalteceu o nome de Nyala Kintu como uma figura poderosa dentro do clã.
Em breve, ele seria convocado para um passeio e o levaria a lugares. Pelo menos haveria oportunidades, era o que ele acreditava.
Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra]
Nyala Kintu - Ventrue - Arconte;
Flora Caroline - Ventrue - Primogênita;
Pierre Toussaint Gaudez - Toreador - Primogênito;
Reinhardt Birkheuer von der Näcktschwert - Malkaviano - Senescal;
Yussef Ahmad Al-Sabbah - Banu Haqim;
Bruno Giovanni - Hecate;
Luiz Pareto - carniçal.
Sistema:

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