Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 14 [Vampiro a máscara 5ª edição]


Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 14

(04/06/2023 domingo) 

A noite caiu mais uma vez. O clima já mostrava as nuances do frio noturno e as garras do início da seca. Se estivessem completamente vivos, a coterie Sentinela Escarlate sentiria a acidez em seus estômagos, devido a preocupação do que poderia vir. 

O receio de encontrarem e ciceronearem a Arconte Ventrue Nyala Kintu era quase tátil, e totalmente inevitável. Em rápida reunião, ainda no refúgio sob a Bloodlust, resolveram se dividir em dois carros: José Teixeira em um, o qual levaria a Arconte; e no segundo os demais integrantes da Sentinela Escarlate, como equipe de apoio.

Foram buscar Nyala Kintu. O carro com a equipe de apoio ficou do lado de fora, sequer entrou no terreno da residência onde a senhora Kintu estava. Cavalcante entrou com o seu veículo, passando pelos portões e por seguranças armados. O jovem Ventrue sabia a quem pertencia aquela mansão.

Flora Caroline, a Primogênita Ventrue, estava cercada de seus sectários e mal esperou Cavalcante descer do carro para dar-lhe as instruções relevantes. As orientações e a formalidade com que foram passadas, davam um ar de organização plena, obediência cega e ameaça velada caso houvesse qualquer deslize que incomodasse a Arconte. José escutou tudo com atenção e em silêncio, apenas assentindo com meneios de sua cabeça.

Altiva como todos os membros do clã dos Tiranos, Nyala Kintu entrou no carro. Com todos os protocolos executados, Cavalcante perguntou o primeiro destino, ao qual ouviu, com o sotaque característico dos lusófonos africanos – “Guará 1, QI 20”. 


Durante a viagem, Nyala Kintu perguntou a Cavalcante sobre cada um dos membros de sua eclética coterie. Ouviu atentamente o ponto de vista do jovem Ventrue sobre a cativante Catarina, o peculiar Martins, deu uma atenção inspirada a Eli e absorveu cada palavra falada sobre o Pastor, um assunto que lhe parecia de extrema importância.

Após aproximadamente 22 minutos, chegaram ao destino. Como era esperado, Cavalcante abriu a porta para a senhora Kintu e os demais membros da coterie receberam permissão para se aproximar.

Nyala Kintu cumprimentou um por um. Foi polida, eloquente e habilmente política ao lidar com membros de outros clãs, mesmo aqueles que eram recém-abraçados ou com apenas algumas décadas de não-vida. Ela deu atenção especial ao Pastor Israel, devido à sua linhagem previamente antagônica.

Catarina sabia a quem aquele território pertencia, a Lavínia Almeida, de seu próprio clã. Elas haviam sido apresentadas quando Iram organizou uma extravagante soirée para apresentar Catarina aos membros do clã dos hedonistas, ou Divas, como ela preferia chamá-los. Era estranho pensar que alguém tão desinteressante como Lavínia pudesse chegar aos ouvidos de uma Arconte. A impressão que Lavínia passava era de não ter o charme ou a aparência necessários para pertencer aos Toreadores. Era como se o segundo colocado recebesse o prêmio principal porque o vencedor ficou impossibilitado de fazê-lo. No entanto, parecia que a habilidosa alpinista social havia cometido um erro.

Seja qual fosse o objetivo da senhora Kintu, ele não foi encontrado imediatamente. Eles caminharam pelo território, passaram pelo comércio, cruzaram com drogados, pessoas em situação de rua, prostitutas, jovens barulhentos, pequenas gangues, marinheiros e cidadãos comuns. Na área comercial da Rua 7, em frente à boate Clair de Lune, uma fila de pessoas aguardava para entrar no local noturno. Alguns vendedores ambulantes ofereciam bebidas, cigarros ou substâncias ilícitas aos jovens que chegavam e entravam na fila. O lugar estava animado.

Nyala observava as marcas nas paredes, aparentemente o que ela estava procurando: grafites e pichações que se misturavam com a paisagem urbana, passando despercebidos aos olhos dos mortais. Foi quando, com roupas destoantes dos habitantes locais, um grupo de rapazes proferiu comentários racistas em direção a Kintu.

Antes mesmo que Nyala pudesse ou quisesse dizer alguma coisa, Cavalcante já havia começado a discutir com os rapazes. No início, foram apenas palavras irritadas, mas logo surgiram ofensas graves, seguidas por uma ameaça de violência por parte dos mortais, culminando em gritos de medo e desespero. José Teixeira sacou sua arma e disparou três vezes nos joelhos do rapaz que havia desrespeitado a Arconte. As pessoas correram, gritaram e se esconderam. A fila se dispersou e o jovem ficou sangrando na calçada.

A Sentinela Escarlate observou a ação de Cavalcante incrédula. Temeram, apavorados, uma possível reação da Arconte.

Nyala Kintu, sem expressar descontentamento ou qualquer outro sentimento, caminhou até onde haviam estacionado e ordenou que todos os membros entrassem nos carros e partissem.

No carro em que estavam os outros membros da Sentinela Escarlate, a discussão e um certo arrependimento estavam em curso, enquanto no carro de Cavalcante, a senhora Nyala Kintu deu apenas uma ordem: seguir para Valparaíso de Goiás, na Rua 15, deixando claro que esperava que o jovem Ventrue não tivesse medo de exceder a velocidade. A cento e quarenta quilômetros por hora, eles atravessaram todas as barreiras eletrônicas e passaram pela PRF, adentrando indubitavelmente o território dos Anarquistas, comandado por Bruno Ribeiro, o Brujah.

Lidar com vampiros da Camarilla já era como andar sobre ovos. Requeria habilidade e controle. Lidar com vampiros não alinhados à Camarilla era entrar no reino do caos, pois não se sabia o que esperar deles. Eles não respeitavam regras. Pelo menos esperava-se que respeitassem a Máscara, já que a Segunda Inquisição não distinguia um tipo de vampiro do outro.

Chegaram ao endereço divulgado pela senhora Kintu. Assim que saíram dos carros, perceberam vários pares de olhos fixos neles. Às vezes havia murmúrios, outras vezes risadas, mas frequentemente havia apenas uma tensão que poderia se romper a qualquer momento, liberando o caos.

Encontraram Douglas, um Gangrel que exibia características animalescas em seu rosto, o que causou certa angústia em Cavalcante, pois ele nunca havia visto um membro dos Selvagens. Como esperado, Douglas foi insolente, tagarela e ignorante. Ele mostrou suas garras assassinas como forma de intimidação, mas logo se calou quando Nyala Kintu ordenou que ele os conduzisse até Bruno Ribeiro. A ordem não podia ser contestada. A vontade de Douglas foi quebrada. Ele obedeceu como um cão adestrado.

Os muitos pares de olhos não os abandonaram enquanto caminhavam pelas vielas repletas de caixas. Chegaram a um depósito e na porta estava um vampiro de aparência jovem, mas com uma presença marcante. Era Bruno Ribeiro, reconhecido como Barão por aqueles ao seu redor. Bruno, a fera. Bruno, o líder. Bruno, o Braço de Abdias.

Catarina repudiava os Brujah por terem abandonado a Camarilla. Para Israel, tudo aquilo era muito recente. Para Urt, estar perto de Bruno era como estar diante dos assassinos da Venerada. Para Cavalcante, eles eram apenas um bando desorganizado de vampiros que ele sequer conhecia.

Kintu não perdeu tempo e posicionou-se à frente, iniciando uma conversa com o Barão. Falaram abertamente por alguns momentos, e ela perguntou sobre o paradeiro de Abdias Torquato Valente. O nome machucou os ouvidos de Eli Urt. Ele era o assassino da Venerada. Todos sabiam disso. O Barão apenas disse que Abdias não estava presente e que não tinha notícias dele há quase duas décadas. Bruno e Nyala entraram para conversar.

Os pares de olhos, às vezes, tentavam espiar o que estava acontecendo dentro do galpão, outras vezes pairavam sobre os membros da Camarilla que estavam ali, à mercê de suas vontades, indefesos.

Foi quando o primeiro golpe foi ouvido dentro do galpão. Todos se voltaram para a porta. Outro golpe seco. Um terceiro, quarto, quinto, e assim por diante. A apreensão era total. Então, Nyala foi arremessada pela porta, voando e colidindo contra várias caixas do lado de fora. Em seu peito, uma chama vermelha parecia queimar. Na escuridão do galpão, era possível ver o punho de Bruno Ribeiro, um punho que personificava a fúria ardente de seu coração. Nyala correu para dentro e a violência continuou por vários minutos, até que ambos saíram, retalhados, machucados e ofendidos. Apertaram as mãos, e a senhora Kintu apontou para Cavalcante. José foi até eles. Bruno observou e consentiu. Levou José para o interior do galpão, onde agora era possível ver apenas uma vela e uma mulher de mantos escuros e olhos sombrios. Os amuletos que ela carregava lembravam as marcações e livros de Eli Urt. Então, havia Tremere fora da Camarilla, pensou Cavalcante. Veda Maat, a Tremere, realizou um ritual e coletou o sangue do Ventrue, guardando-o em um recipiente em forma de serpente. Veda recebeu uma ordem verbal de Bruno para apenas manter o sangue em boas condições e não usá-lo para qualquer outro propósito. Cavalcante não se importava; sangue era sangue e servia apenas para se alimentar. A ignorância o envolvia em uma alegria insensata.

Ao retornarem à residência da Primogênita, Kintu olhou para Cavalcante e disse que eles haviam restaurado suas obrigações e status perante a Camarilla. Ela foi enfática ao dizer que ela mesma falaria com o Príncipe. Para a Sentinela Escarlate, suas responsabilidades foram cumpridas, e para Cavalcante, foi concedido reconhecimento dentro do clã Ventrue.

O Pastor Israel dirigiu-se à igreja. Proferiu seu sermão. As pessoas estavam entusiasmadas e cantavam em devoção. Após a conclusão da noite de orações, quando o Pastor estava prestes a partir, com receio de permanecer e encontrar algo ou alguém indesejado, um jovem adentrou pela porta. Era um fiel, um filho de pessoas que o Pastor conhecia há anos. Eduardo era um rapaz jovem, que ainda não havia alcançado a idade para se alistar no exército, e possuía traços inconfundíveis.

Eduardo comunicou ao Pastor Israel que ouvia o diabo e sentia-se compelido a fazer coisas que não desejava. Israel já estava familiarizado com aquela situação, sabia o que aquilo significava, e se aproveitava de pessoas como Eduardo. O jovem era homossexual, mas ainda não havia assumido sua orientação, e sentia a necessidade de atribuir suas ações pecaminosas ao diabo. Se estivessem em outro momento e local, Israel teria encontrado uma presa tão facilmente, mas a igreja já não era tão segura após o culto. No entanto, algo chamou a atenção de Israel. Eduardo confessou que havia tido um caso com outro membro da igreja, chamado Seco, um ex-presidiário que não comparecia às reuniões há algumas semanas. Eduardo foi enfático ao afirmar que havia assassinado Seco por vergonha do que haviam feito. O jovem pediu ajuda ao Pastor. Israel o mandou embora, dizendo que consideraria uma forma de auxiliá-lo. Antes de sair, Eduardo mencionou que sua visão estava escurecendo. Israel, então, o expulsou. Ele sabia o que significava a escuridão nos olhos do rapaz.

Quando Eduardo saiu, as portas se fecharam e Benedita Venegas surgiu como uma sombra infernal. Ela ameaçou Israel e revelou que só sabia do seu paradeiro na cidade, desconhecendo o paradeiro dos outros Lasombra, mas prometendo encontrá-los em breve. Benedita exigiu que Israel entregasse o diário de Niko Petrakis a ela. O Pastor Israel manteve a compostura, embora soubesse que havia estado mais próximo da morte do que nunca. Com a ameaça impressa em sua mente, Benedita partiu.

Personagens

Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra] 

NPCs:
Nyala Kintu - Ventrue - Arconte;
Beliza Gregory - Tremere - ex-Príncipe;
Bruno Ribeiro - Brujah - Barão Anarquista;
Abdias Torquato Valente - Brujah - ex-Primogênito;
Douglas - Gangrel - Anarquista;
Lavínia Almeida - Toreador;
Benedita Venegas - Lasombra;
Niko Petrakis - Tzimisce;
Eduardo Ferreira - jovem da igreja;
Seco - ex-marginal;
Renato Tavares - humano racista.

Sistema:
Vampiro: a máscara 5ª edição

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