Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 18 [Vampiro a máscara 5ª edição]


Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 18

(23/07/2023 domingo) 

A noite caiu e as dores se acentuavam. No Refúgio, sob a boate Bloodlust, a mesa estava limpa, sem velas, sem flores, mas com um arranjo de frutas frescas, que jamais seriam tocadas, como uma oferenda aos que partiram.

Os vampiros estavam com fome. Mesmo o mais sábio, comedido e bondoso vampiro, poderia se tornar um monstro quando pressionado pela fome eterna que o impelia a devorar o sangue mortal.

Cavalcante acordou cedo e partiu antes de qualquer reunião. Não havia piedade em seu olhar.

Catarina despertou para a noite, se reuniu com os três membros de sua Coterie que estavam presentes ao recinto. Viu que estavam piores neste início do que ao fim da anterior. Após breve conversa e consideração, ela subiu e disse para Pareto que ele não deveria conversar com nenhum dos outros de seus senhores, pois estavam passando por um processo especialmente perigoso, algo que poria sua integridade em risco. Pareto, apesar de tentar argumentar, aceitou a ordem e conselho da linda Toreador.

Assim as coisas se deram, com Eli Urt  indo às ruas, preocupado com os efeitos que a Besta faminta já estava projetando em sua alma. Preferiu não andar muito e, ainda dentro da primeira área de seu território, encontrou um grupo de mortais, amigos entre si, que conversavam e se divertiam naquela fria noite. Não perdeu tempo, não buscou formas complicadas de caça, impeliu sua vontade e ordenou um deles a segui-lo, e ao mínimo contragosto dos outros homens, foi categórico em intimida-los. Mesmo não se afastando muito, se alimentou do pobre mortal, que foi largado em sofrimento e êxtase num beco escuro.

Catarina sentiu-se impelida a ajudar Pastor Israel a se alimentar. Não por nenhum outro motivo que não fosse a própria satisfação de ver o Lasombra, uma aquisição tão recente para a sua amada Camarilla, beber o sangue fresco de alguém ofertado por uma Toreador. Dotada de beleza quase sobrenatural e capaz de soltar palavras que encantariam até um ditador, Catarina possua um pequeno séquito de admiradores, aos quais vez ou outra ela permitia se deliciarem com seu corpo em troca do rubro tesouro de suas veias. Ao contrário do que algumas mentes poderiam imaginar, não eram tantos seguidores assim, apenas um punhado, o suficiente para não chamar demais a atenção, para não criar um culto à sua personalidade que fugisse de seu controle, e naquela noite em especial ela iria chamar um dos que mais se divertia em fazê-lo sofrer (de amor e perda), Bernardo Monteiro, um poeta marginal, que começava uma pequena e promissora carreira como músico. Monteiro não começou a noite muito satisfeito em dividir sua amada Catarina com outro homem, mas a vampira sabia como convencer os menos afortunados e o jovem poeta caiu na armadilha de ouro. Pastor Israel, Catarina e Bernardo foram para um quarto, onde intimidades deveriam ser expostas, contudo, apesar de uma breve vitória, o único a perder e ter suas integridades física e mental violadas, foi o mortal. Catarina agravada ao poeta, e o poeta alimentava o Pastor. Durante o processo, no momento profano do ápice de deleite, Israel teve uma visão. Ele viu Martins agoniando, sofrendo, em martírio entre sinais divinos.

Torrado saiu desesperado para se alimentar. O confronto contra a Gangrel lhe havia sido especialmente excruciante. Apesar dos poderes predatórios que a noite concedia, a maldição vampírica o consumia. Sua fome o torturava. Vestido com a escuridão, passou desapercebido entre pequenos grupos, que quase o faziam perder a compostura. O pulsar da vida o inebriava, o tentava, o fazia querer atacar a todos, indistintamente, mas se controlou e aguardou em uma área mais deserta por alguma vítima incauta. Sua paciência e perseverança pareciam tê-lo presenteado com um alvo. Era um rapaz jovem, de aparência simples, roupas sem especificidades, que carregava alguns livros enquanto ouvia a alguma música em seus fones de ouvidos. Era a presa perfeita. Invisível aos olhos e aos sentimentos, emboscou o rapaz que provavelmente havia acabado de deixar o trabalho ou o colégio. O sofrente não teve chances de reação. Antes mesmo que se desse conta, seu pescoço havia sido rasgado e o sangue fluía agonizantemente para dentro de um demônio. A fome de Torrado Martins começava a ser saciada e sua mente deixava de ser nublada pela Besta, até que uma dor muito além de todas as dores sentidas em toda sua não vida, tomou conta do Nosferatu. Martins empurrou o jovem com brutalidade e instintivamente buscava vomitar o sangue que havia bebido a pouco. Não entedia nada do que havia acontecido. Tentava tirar de si o alimento que queimava, que não deveria, mas começava a feri-lo como se houvesse um veneno que provocava sofrimento imenso. Enquanto tentava, em vão, expulsar o sangue, recebeu um golpe do jovem que o fez cair ainda mais em dores. A bíblia que o rapaz carregava agora estava ensanguentada e a fúria de Deus estava em seus olhos. Torrado não tinha mais o que fazer. Correu. O jovem ficou lá, com a bíblia na mão, com o pescoço exposto, com o sangue jorrando, na esperança de que seu Deus mandasse uma boa alma para salvá-lo das garras da morte.


Duas noites depois o grupo recebeu uma convocação, com o selo de Lodo, para comparecerem ao polo de modas do Guará. 

Chegaram ao local e foram recepcionados por um homem grande, dois metros de altura, olhos verdes e face medonha. Não se intimidaram com aquela figura, apesar de ficarem assombrados com a forma e físico do mortal. Não muito tempo se passou e a Sentinela Escarlate foi recebida por Alice Pink, a Nosferatu. Alice Pink era uma vampira de aparência distorcida, com cabelos raspados nas laterais e um corte moicano desalinhado. Seu corpo era esguio e angular, com dentes proeminentes e assustadores, marcas de queimaduras no rosto e uma extensa ferida que descia pelo pescoço e se perdia entre os seios flácidos. Sua feição era mais tenebrosa que de Martins ou mesmo Lodo. Alice os recebeu com educação, uma voz cancerosa, e um sorriso que mais trazia desgosto e pavor do que demonstrava alegria.

Logo Lodo se mostrou. Ele parabenizou a Coterie pelos feitos junto a Ingrid, a Gangrel, mas também exigiu que se explicassem sobre o que que aconteceu com Torrado Martins, que estava em um caixão trazido por Pink e deixado à frente de todos. Quando abriram a caixa, viram Torrado, nu, com uma marca de cruz queimando-lhe o corpo, que ia de ombro a ombro e do pescoço ao púbis. 

Os vampiros não conseguiram olhar para Torrado, à exceção de Catarina e Israel, que mesmo com certa ojeriza, viram a figura decadente e monstruosa de seu aliado.

Aos gritos, Lobo demandou que quem quer que tenha feito aquilo com Martins, fosse identificado para, ou ser exterminado, ou marcado como proibido a todo e qualquer Membro. 

Urt falou que estudaria o sangue de Torrado para entender o que aconteceu. Lodo então arremessou a tampa da caixa para longe e gritou em fúria. Eli pediu ao Pastor que tirasse uma amostra para avaliação, entretanto Lodo olhou diretamente nos olhos do Tremere e disse que não, que se ele quisesse algo do Nosferatu, era ele quem deveria faze-lo. Urt assumiu uma postura menor e demonstrou que também não conseguia se aproximar de Martins.

O sorriso doentio de Alice era quase imperceptível.

Passado o rompante, Lodo permitiu que levassem Martins para ser cuidado por seus pares, para ser estudado também, mas ameaçou arrancar a cabeça de Urt e entregá-la diretamente no colo de Jason Wyld, caso os experimentos Tremere seguissem por  caminhos que o desagradassem.

Assim, Lodo continuou e falou que a Coterie precisaria entregar Ingrid, em até duas noites, dentro dos protocolos da seita e reiterou a satisfação com a ação tomada e seu desenrolar, apesar da ameaça à máscara e os fatos ocorridos.

Alice, sob ordem de Lodo, colocou o caixão com Torrado Martins no carro da Sentinela Escarlate.

Durante a despedida, Alice buscou ser simpática e educada, mas Catarina evitou, com um olhar de nojo, a mínima menção de qualquer toque da horrenda Nosferatu em seu rosto. Mesmo ela estando distante, a simples ideia de que aqueles dedos a tocassem, dava a ideia de que seria contaminada por alguma doença contagiosa transmitida pela aberração que um dia foi uma mulher.

Alice Pink engoliu seu sorriso macabro e deixou transparecer a tristeza dos que se sentem inferiores perante os belos.

A Sentinela Escarlate partiu, sob o olhar atento de Pink e os pensamentos de Lodo.


Ao chegarem no Refúgio, um calafrio percorreu Pastor Israel e Catarina que sentiram uma presença irreal e logo notaram a tênue aparição fantasmagórica que, com uma voz inaudível, os chamou para dentro da pulsante boate.

Seguiram a coisa e viram o membro do clã Hecata, Bruno Giovanni, confraternizando com alguns mortais, fingindo que bebia uma cerveja, buscando ser um qualquer na multidão. Assim que Bruno viu a coterie, educadamente se desvencilhou dos humanos e foi ter com os seres da noite. Ele agradeceu pelo que a Coterie tinha feito. Perguntou sobre Ingrid. Quis saber se ela estava morta e chorou sangue de alegria e aparente satisfação ao saber que ela não estava. Pediu para vê-la. O pedido lhe foi negado duas vezes. Antes de solicitar uma terceira vez, ele questionou sobre o preço que deveria pagar à Coterie, uma vez que ele tinha sido o estopim da ação contra sua antiga aliada. A Vehme ficou de pensar em um preço apropriado e, por fim, Catarina permitiu que Giovanni descesse e visse Ingrid.

A pose da Gangrel na cela era exatamente como a Sentinela Escarlate a tinha encontrado quando a caçaram. Um animal acuado no canto, com os olhos vermelhos e a fome maldita na alma.

Bruno se aproximou das grades, se ajoelhou e pediu desculpas a Ingrid. Levantou-se e começou a partir. A Gangrel então falou pela primeira vez, com uma voz fraca e quase inumana, perguntando se ela estava lá, naquela cela, por culpa de Bruno, e o Hecata, com um descontentamento sofrido na voz, afirmou para sua antiga amiga que sim.

Subiram. Catarina explicou que levariam Ingrid para Lodo em breve e que precisavam alimentá-la para que nada de errado ocorresse. Pressupuseram que bolsas de sangue serviriam, ideia que logo foi desmentida por Giovanni. Ele explicou que vampiros tão velhos como eles precisavam de sangue fresco de gente viva. Catarina deixou insinuado que Bruno deveria resolver a situação. E assim o Hecata partiu, cabisbaixo, entretanto resoluto.

Pastor Israel confrontou Catarina sobre ela ter sido tão impolida com Alice Pink no território dela, perante o Senhor dela, quanto pelo ato de permitir que Bruno Giovanni descesse à masmorra onde Ingrid estava. Catarina, com toda a soberba que os Toreadores carregavam, mostrou que não temia nada, e que se ela fosse atacada, venceria, ou, no máximo, todos os senhores da noite a defenderiam.

Israel sabia que, mesmo com o apoio de Urt, não venceria um argumento contra alguém que tinha colocado uma ilusão tão sem fundamento a não ser na própria exagerada autoestima e ego inflado. Deu de ombros.

José Cavalcante estava faminto e foi buscar seu alimento entre os únicos que valiam a pena alimentá-lo, o meio político. 


Personagens

Jogadores:
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra] 

NPCs:
Ingrid Menezes Ortis - Gangrel;
Lodo - Nosferatu - Xerife - Primogênito;
Alice Pink - Nosferatu;
Bruno Giovanni - Hecata;
Bernardo Monteiro - poeta marginal;
Vitão da D.I.- pagodeiro;
Ronaldão - segurança de Alice Pink;
Charles Silva - trabalhador e pessoa de fé;
Luiz Pareto - carniçal.

Sistema:
Vampiro: a máscara 5ª edição

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