Quando a noite cai: Medos Ácidos - Sessão 21 [Vampiro a máscara 5ª edição]
(13/08/2023 domingo)
José Teixeira Cavalcante, jovem membro do Clã Ventrue, líder questionado da Vehme Sentinela Escarlate, estava caçando, junto com Luiz Pareto, o carniçal da coterie. Sua vítima não era apenas para alimentação, mas também para cumprir juramentos de vingança que fizera à sua prima, Valéria.
O alvo era um Davi Andrade, proeminente jovem filho de família tradicional mineira, cuja dinastia estava atrelada ao poder desde o início da república.
O campo de caça era conhecido, os redutos ricos do poder de Brasília. Os bons restaurantes, os lugares exclusivos, as portas que apenas o poder, e não somente dinheiro, poderiam abrir.
E foi justamente em um dos mais badalados restaurantes do Setor Hoteleiro Norte que o novelo se desembaraçou. Davi estava junto com amigos e uma namorada, a pobre mulher talvez não soubesse das atrocidades feitas pelo rapaz, mas danos colaterais eram inevitáveis em certas situações.
Vendo que a bebida fluiu em ritmo acelerado entre os membros da mesa de Davi, Luiz Pareto pediu permissão a José Cavalcante para colocar um pequeno plano em execução. Com a anuência de Cavalcante, Pareto levantou-se, foi até a cozinha e através de sua influência e uma soma considerável de dinheiro, convenceu um dos garçons, a colocar uma pequena fórmula em uma das garrafas de vinho. O garçom era um antigo cliente de seu escritório de advocacia, um que ele sabia ser culpado, mas conseguiu a inocência perante o júri, e executou satisfatoriamente o serviço.
Após várias rodadas de bom, e viciante, vinho, Davi e a namorada Elza saíram do restaurante. Davi encontrava-se visivelmente fora de si. Seus amigos nada disseram, pois também não estavam em melhores condições.
Ainda no valet, iniciou-se a briga entre Elsa e Davi. A jovem não queria que Davi dirigisse o vigoroso carro e começaram a discutir. Aproveitando o momento, Pareto e Cavalcante se aproximaram com a face de quem gostaria de ajudar, mas cujas intensões eram outras. Cavalcante, através de seu poder de persuasão, convenceu Elza de que Davi estava pleno de suas faculdades. Pareto, disfarçadamente, inseriu um grupo de grandes insetos no bolso do casaco do rapaz embriagado. Por fim, Cavalcante plantou na cabeça de sua presa a ideia de que a velocidade não seria o problema para sua enorme perícia ao volante.
Como desejado, ocorreu. Assim que entraram no carro, Davi acelerou como se estivesse em um filme de corridas clandestinas.
Cavalcante e Pareto tentaram acompanhá-los e, logo após poucos quilômetros, viram o carro importado capotado no canteiro central. A bebida fez sua parte e os insetos complementaram a cena dantesca.
A mulher sangrava muito, mas o alvo não era ela. O Vetrue e o carniçal carregaram o jovem acidentado para dentro do carro e partiram em direção a Taguatinga.
Já no refúgio, amarram o ferido rapaz a uma cadeira, em uma das salas subterrâneas.
Por muito tempo Davi foi achacado, espancado e ofendido. Sua mente estava entorpecida pela bebida, abalada pelo acidente e tensa pela violência.
Cavalcante ainda hesitou em executar sua promessa à prima, mas seus grilhões familiares lhe eram importantes e sua palavra era lei.
Após uma sessão de sadismo com moribundo Davi, José finamente mordeu o pescoço do homem e deu cabo de sua vida.
Pessoas morrem e coisas quebram, era uma nova filosofia, um passo em direção à monstruosidade do abismo inumano.
Pareto então chamou Cavalcante para a masmorra, onde mostrou os restos das vítimas levadas pela coterie para alimentar Ingrid. Havia sangue, vísceras e muita sujeira.
Como era de se esperar, Pareto ficou de arrumar as coisas. Levou os dois corpos, do que uma vez foi Davi e do que sobrou do alimento de Ingrid, para a garagem coberta. Lá ele viu um carro diferente, com vidro quebrado, estacionado de forma desleixada. Sequer se questionou. Sabia que deveria cuidar disso também.
Os corpos foram colocados no carro e Pareto foi dar um jeito neles. Ele não sabia, mas olhos o observavam.
Após entregarem Ingrid a Lodo e ficarem à cargo de Iran, a coterie chegou a uma enorme mansão no Setor de Mansões do Lago Sul. Distante já se ouvia a música e observavam-se as luzes. Era uma festa jovem, animada, moderna, com DJs, alta tecnologia, aparatos dos mais diversos, performances, e muito mais. Era o ambiente de Catarina, contudo era um lugar diverso demais para Eli Urt, Pastor Israel e Torrado Martins.
Chegaram, estacionaram e organizaram alguns pontos. Entraram e viram uma multidão dançante de corpos novos, seduzidos por música, bebidas, libidinagem e ilegalidades que eram permitidas longe dos olhos das autoridades.
Iran tinha trabalho a fazer. Precisava conversar com pessoas e conseguir informações, fazer seu ofício de Harpia e demandou que a coterie vestisse uma face humana e se divertisse. E assim fizeram. Por alguns minutos ficaram juntos, com Catarina servindo de apoio naquele mundo de sons repetitivos, suores e corpos sem camisa. Então a bela Toreador viu Iran em uma animada conversa com uma pessoa estranha e atraente. Iran não se furtou a chamá-la, talvez seu erro da noite.
Catarina foi ao encontro de Iran e foi introduzida à mulher, que lhe apresentada como Renata Batory, cujas palavras eram enigmáticas, etéreas, como se alucinógenos a guiassem em um mundo todo dela. Logo a conversa tomou corpo e a exótica Batory começou a falar sobre nomes conhecidos da comunidade vampírica. Ela falava sobre o passado, sobre eventos ocorridos, sobre indiscrições e também situações que eram gloriosas. Era um dos pássaros de Iran.
As coisas estavam interessantes até que Renata começou a falar sobre situações pertinentes aos membros de sua coterie, principalmente sobre Cavalcante, cujo nome já percorria algumas bocas mais dissonantes na Camarilla.
A conversa entre Iran, Catarina e Renata começou a tomar um rumo que a Harpia não desejava, mas Renata insistiu.
Então, de súbito, a música da festa parou, vaias surgiram e a voz de Pastor Israel foi ouvida nos autofalantes de todo o recinto. Ele estava de posse de um microfone e usou o palco e o SET do DJ como púlpito. Ele esbravejou e começou a pregar a palavra de sua religião cristã-abismal a todos os presentes.
Tomado por uma compulsão galopante, Israel esbraveja com toda a força dos seus pulmões.
Apesar das inúmeras vaias, dos gritos de desprezo de muitos, a paixão com que exprimia as palavras de sua fé, tanto pentecostal quanto cainita era avassaladora ao ponto das luzes do lugar começarem a apagar uma a uma, como se uma força sobrenatural vinda do abismo as controlassem.
Foi então que um pico de energia ocorreu.
Iran aproveitou a plena escuridão. Ele não estava mais ao lado de Catarina. Agora se encontrava ao atrás do Pastor Israel. A Harpia tomou o microfone para si e com sua voz característica, demonstrou que todos teriam lugar de fala, todos eram diversos, mas que aquele momento e lugar eram de festa. A música voltou com uma batida que levantou a multidão do chão.
Israel foi logo tirado do palco e cercado por um grupo de meia dúzia de jovens, que ouviram suas palavras e acreditaram nelas, convertendo-se por força dos químicos, de vidas vazias ou por algo inexplicável.
Iran aconselhou Israel a afastar-se dali, para pregar sua palavra sombria em um lugar mais afastado, e assim é feito. Quando viu como aquele rebanho acompanhou o Lasombra, sorriu e exigiu que um dos jovens os acompanhassem quando saíssem. O Lasombra assentiu.
Apesar de aturdido com a exposição de Israel, Eli Urt notou que dois seguranças foram em direção ao Pastor, com intenções que iam aquém do agradável.
O Tremere tentou pará-los com argumentos, disciplinas místicas e seu arsenal sombrio, mas ali não era seu lugar de caça, a música era ensurdecedora, insípida e enlouquecedora. Urt não conseguiu se concentrar e foi removido do caminho como sequer existisse. Ainda ouviu palavras ofensivas. O ódio tomou conta de Eli, mas aquele lugar não seria o campo de batalha para uma vingança contra aqueles mortais, audaciosos e fadados a um destino pior do que a morte. Era necessário manter a Máscara.
Catarina foi tentar entender o que aconteceu, por quê Israel subiu ao palco e começou a pregar e por quê Urt estava com o olhar de ódio mais intenso que a Toreador jamais viu.
Os seguranças agarraram Israel para escoltá-lo até a saída, talvez com uma parada visceral no caminho. O grupo de jovens que circundava o Pastor tentou protegê-lo, mas um dos seguranças usou de brutalidade e com um murro abriu um rasgo no lábio de um deles.
Celulares foram sacados e começaram a filmar. Israel percebendo que aquilo poderia ser fatal para a Máscara, resolveu amenizar as coisas e acompanhou os seguranças, ao menos por algum tempo.
Quando estavam próximos da saída, um jovem magro, de roupas extravagantes e um óculos nada discreto os interceptou. Era Jorge Paulo Bulhões, o dono da festa. Por alguma razão ele permitiu a permanência de Israel no lugar. Ele achou tudo muito interessante. Ele sabia que as pessoas falariam do evento por dias até. Os seguranças, muito a contragosto, deixaram o Pastor partir.
Uma hora e pouco depois, Iran e a Sentinela Escarlate partiram para outro lugar.
O jovem ferido durante o confronto com os seguranças foi acolhido por Pastor Israel e Iran Borba. Os três entraram no carro da Harpia. Ele jamais sairia dali com vida.
No caminho Iran começou uma conversa com Pastor Israel. A conversa teve um início leve, começando com um allegro moderato, com amenidades sobre alimentação, satisfação em ter um novo Clã na Camarilla, e sobre a alegria de tê-los em sua casa nas próximas noites. Após um tempo ela entrou em um crescendo rumando para um presto con brio. A Harpia ameaçou Pastor Israel, informando-o de que eles eram novos na seita, que ele, Iran, até achou interessante a vinda de novos e exóticos vampiros para o front, mas que se ele, Israel, atrapalhasse novamente seus os afazeres, a Harpia faria de tudo para que Israel e os demais Lasombra ardessem ao Sol e encontrassem a morte final.
Ao final da conversa, o tom ameno e amigável voltou.
Após a festa, foram para uma casa na 715 Norte.
Lá, segundo Iran, iriam conversar com um Toreador conhecido como Carlos Gonçalez.
O Pastor mostrou educação e tocou a campainha.
Uma velha abriu a porta e a coterie entrou. O lugar era um atelier de pintura. Várias obras tanto concluídas quanto inacabadas preenchiam o local. Tintas, pinceis, cavaletes e toda sorte de apetrechos eram vistos. Catarina observou atentamente as obras de arte e se encantou com a força de cada uma. Eli Urt foi obrigado, por alguns momentos, a engolir o ódio e se entregar à admiração pela maestria do artista, certamente um modernista. O Pastor, ao olhar as obras, viu apenas frustração, inveja e antagonismo contra si, como se cada uma daquelas pinturas fosse feita exclusivamente para humilhá-lo.
Tomado pela mais baixa e rancorosa inveja, Israel aguardou os demais continuarem em frente, deixando-o só por instantes. Pegou um estilete e desferiu golpes no quadro que considerava o mais importante. Destruir aquilo fez com que se sentisse melhor.
A coterie e Iran chegaram a uma sala onde foram recebidos por Gonçalez, que estava aturdido por receber a Harpia e a Vehme Sentinela Escarlate em seu refúgio.
Iran foi direto e enfrentou Carlos com acusações. De início deu a Carlos Gonçalez a chance de repetir perante todos as ofensas que havia proferido contra o Príncipe Maximiliano. Gonçalez logo tentou desmentir. Ele mostrava-se nervoso, mas mostrava convicção de que jamais havia falado nada contra o Príncipe. Todavia a Harpia trazia consigo um gravador e as palavras ditas, entre conversas particulares, indicavam a voz de Carlos, proferindo desacordo com as políticas do virtuoso Ventrue, elogiando a antiga Príncipe Beliza Gregory, e deixando claro seu dessabor com a aceitação dos Lasombra entre os membros da Camarilla.
Ao ser desarmado com aquela gravação, ainda ouviu que a Harpia iria, através de Pierre, conseguir uma audiência entre Gonçalez e Maximiliano, para que ele pudesse pedir as devidas desculpas.
A coterie saiu da casa do cabisbaixo artista Toreador e rumou para o refúgio de Iran, que agora seria obrigado a hospedá-los, conforme lhe fora imposto por Lodo.
Cavalcante aguardou os membros de sua coterie, contudo dias se passaram sem novas informações.
Pouco mais de uma semana se passou e, em uma noite aparentemente comum, Vilmar apareceu com um comunicado para Cavalcante. O lacaio, que tantas vezes lhes trouxe obrigações e casos para resolverem, estava ali para informar que José deveria deixar o refúgio o mais breve possível, pois eventos acima dos dois estavam em movimento. Também deixou expresso que seus colaboradores se encontravam alojados juntos à Harpia da cidade, o Toreador Iran Borba.
Cavalcante pegou o papel, leu e ponderou. Acompanhou Vilmar até a saída, se certificando que aquele serviçal não retornaria tão breve.
Quando Vilmar partiu já era tarde e o sol estava pronto para irromper. Cavacante se digiriu para seu quarto e estranhou que, apesar de estarem ainda no inverno seco de Brasília, onde não há nuvens, parecia que o dia seria nublado, pois uma escuridão anormal tomava conta de tudo.
Personagens
Renato - José Teixeira Cavalcante [Ventrue]
Neimar - Eli Urt [Tremere]
Osny - Catarina Oliveira [Toreador]
Marquinhos – Vinícius “Torrado” Martins [Nosferatu]
Cris – Pastor Israel [Lasombra]
Maximiliano Jean Carlos - Ventrue, o Príncipe de Brasília;
Beliza Gregory - Tremere, antiga Príncipe de Brasília;
Iran Borba - Toreador - Harpia;
Carlos Gonçalez - Toreador;
Pierre Toussaint Gaudez - Toreador - Primogênito;
Davi Andrade - assessor político;
Elza Lacerda - administradora;
Sebastião Silva - garçom;
Renata Batory - vidente;
Jorge Paulo Bulhões - promoter;
Luiz Pareto - carniçal.
Sistema:

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